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Ciência

Nem gramados nem jardins: a ciência aponta o verdadeiro aliado contra o calor urbano

Um novo estudo mostra que nem todo espaço verde ajuda a reduzir as altas temperaturas. O segredo está em um elemento que muitas cidades ainda subestimam no planejamento urbano.
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Tempo de leitura: 3 minutos

À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes e intensas, cresce também a preocupação em tornar as cidades mais confortáveis e resistentes às altas temperaturas. Parques, jardins e novas áreas verdes passaram a fazer parte das principais estratégias adotadas por governos ao redor do mundo. No entanto, uma pesquisa recente indica que aumentar simplesmente a quantidade de áreas verdes pode não ser suficiente para refrescar os centros urbanos.

Nem toda área verde consegue reduzir o calor da mesma forma

Durante anos, o planejamento urbano considerou que ampliar a quantidade de espaços verdes seria uma das principais soluções para combater o fenômeno das ilhas de calor. Afinal, cidades cobertas por asfalto, concreto e outros materiais impermeáveis absorvem grandes quantidades de energia solar durante o dia e liberam esse calor lentamente à noite, mantendo temperaturas elevadas por mais tempo.

No entanto, pesquisadores da Universidade de Granada descobriram que existe um fator muito mais importante do que simplesmente aumentar a área ocupada por vegetação.

O estudo faz parte do projeto ACTERCA, que analisa as principais áreas verdes das oito capitais da Andaluzia utilizando imagens de satélite, sensores de temperatura e umidade, câmeras térmicas, inteligência artificial e modelos climáticos de alta resolução.

Os primeiros resultados mostram que parques com árvores de grande porte, copas densas e ampla cobertura vegetal conseguem registrar temperaturas entre três e cinco graus Celsius inferiores às observadas em áreas dominadas por pisos impermeáveis, areia compactada ou poucas árvores jovens.

Isso acontece porque o efeito de resfriamento depende de dois mecanismos naturais extremamente eficientes.

O primeiro é a sombra produzida pelas copas das árvores, que impede que calçadas, fachadas, bancos e outras superfícies absorvam diretamente a radiação solar.

O segundo é a evapotranspiração. Durante esse processo, as árvores liberam água pelas folhas, utilizando parte da energia térmica do ambiente e contribuindo para diminuir a temperatura ao redor.

Esses resultados também ajudam a explicar por que árvores recém-plantadas ainda não oferecem o mesmo benefício climático de exemplares adultos. Embora ampliar o plantio continue sendo uma medida importante, preservar árvores maduras e garantir espaço suficiente para seu desenvolvimento pode ser ainda mais eficiente no combate ao calor urbano.

O planejamento urbano precisa ir além do plantio de árvores

Os pesquisadores também destacam que não existe uma única solução válida para todas as cidades.

Cada ambiente urbano apresenta características próprias que influenciam diretamente sua capacidade de enfrentar temperaturas extremas.

Em cidades como Sevilha e Málaga, por exemplo, um fator importante é o chamado albedo — a capacidade que determinados materiais possuem de refletir ou absorver a radiação solar.

Já em Córdoba, a densidade das construções e o grau de impermeabilização do solo exercem papel ainda mais relevante na formação das ilhas de calor.

Granada apresenta uma situação diferente. Em alguns bairros históricos, ruas estreitas e construções próximas reduzem naturalmente a incidência direta do sol, criando ambientes mais agradáveis durante os períodos de calor intenso do que algumas áreas modernas, caracterizadas por avenidas largas, pouca sombra e menor cobertura vegetal.

Por isso, os especialistas defendem que plantar árvores deve fazer parte de um conjunto muito mais amplo de estratégias, envolvendo escolha de materiais urbanos, circulação do ar, disponibilidade de água e desenho das vias públicas.

Outro desafio importante envolve a distribuição desses espaços de proteção.

Pesquisas realizadas em cidades como Sevilha, Málaga e Barcelona mostram que muitos dos chamados refúgios climáticos estão concentrados nas regiões centrais, enquanto bairros periféricos e comunidades de menor renda contam com menos áreas sombreadas e menor acesso a espaços capazes de amenizar o calor.

Além disso, fatores sociais também influenciam diretamente a vulnerabilidade da população às altas temperaturas. Moradias precárias, dificuldades para manter sistemas de refrigeração, falta de informação e espaços públicos pouco acessíveis tornam determinados grupos ainda mais expostos durante as ondas de calor.

Os pesquisadores ressaltam que ainda não existe uma definição internacional única para o conceito de refúgio climático. Em muitos projetos, a prioridade continua sendo apenas reduzir a temperatura, deixando em segundo plano aspectos como biodiversidade, sustentabilidade e adaptação ambiental de longo prazo.

A principal conclusão do estudo é clara: cidades não precisam apenas ampliar as áreas coloridas de verde em seus mapas. Elas precisam investir em redes contínuas de sombra, preservar árvores de grande porte e garantir que esses espaços estejam distribuídos de forma acessível para toda a população. Afinal, um parque pode ser bonito e agradável, mas sem árvores suficientes dificilmente conseguirá proteger seus frequentadores quando uma nova onda de calor atingir a cidade.

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