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Ciência

O MIT conseguiu mover 40 mil átomos em menos de uma hora — e isso pode abrir caminho para materiais que nunca existiram na natureza

Pesquisadores do MIT deram um passo que parecia impossível há poucas décadas: manipular dezenas de milhares de átomos dentro de um cristal sólido, em temperatura ambiente e sem condições extremas de laboratório. O experimento não cria apenas um novo método de engenharia atômica, mas também aproxima a ciência de uma era de materiais totalmente programáveis.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Em 1989, cientistas da IBM entraram para a história ao mover 35 átomos individualmente sobre uma superfície ultrafria para escrever o logotipo da empresa. A demonstração se tornou um marco da nanotecnologia moderna, mas dependia de temperaturas próximas ao zero absoluto e de ambientes extremamente controlados.

Agora, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology anunciaram um salto gigantesco em escala e complexidade. Em um estudo publicado na revista Nature, a equipe conseguiu deslocar cerca de 40 mil átomos em apenas 40 minutos — e dentro de um material sólido tridimensional.

A diferença não é apenas quantitativa. Pela primeira vez, cientistas demonstraram uma forma viável de “programar” defeitos atômicos em cristais de maneira controlada, estável e potencialmente utilizável fora de laboratórios especializados.

O que exatamente os pesquisadores fizeram

Atomos
© Ayush Kumar – Unsplash

O experimento foi liderado pelos cientistas Julian Klein e Frances Ross. Em vez de manipular átomos sobre superfícies bidimensionais, como nas técnicas tradicionais, o grupo trabalhou diretamente no interior de um cristal sólido.

Cada vez que um átomo é deslocado, surgem dois elementos fundamentais: uma vacância — o espaço vazio deixado pelo átomo original — e um intersticial, que corresponde ao átomo em sua nova posição dentro da estrutura cristalina.

Na física quântica, esses defeitos não são imperfeições inúteis. Pelo contrário: eles podem funcionar como componentes extremamente valiosos.

Dependendo do material e da configuração, uma vacância pode atuar como qubit para computação quântica, sensor magnético de altíssima precisão ou elemento lógico em escala atômica.

A grande barreira finalmente caiu

Durante décadas, cientistas conseguiram manipular átomos apenas em superfícies extremamente frias e sob vácuo quase absoluto. Isso limitava enormemente qualquer aplicação prática.

O novo método do MIT rompe essas limitações ao mesmo tempo.

Os defeitos criados ficam protegidos dentro do cristal, tornando-se mais estáveis e menos vulneráveis ao ambiente externo. Além disso, o processo ocorre em temperatura ambiente, algo considerado essencial para futuras aplicações industriais.

A velocidade também impressiona. O segredo está no uso mínimo de elétrons para localizar cada átomo, permitindo que o feixe eletrônico seja direcionado com precisão de picômetros sem destruir a estrutura cristalina.

Segundo Julian Klein, a equipe levou anos para descobrir qual era a quantidade mínima de informação necessária para identificar a posição exata dos átomos sem danificar o material.

O objetivo não é mover átomos: é criar matéria inédita

O aspecto mais revolucionário da pesquisa talvez seja outro: a possibilidade de construir estados da matéria que simplesmente não existem na natureza.

Na prática, os cientistas estão aprendendo a reorganizar estruturas atômicas deliberadamente para gerar propriedades quânticas totalmente artificiais.

Isso poderia permitir o desenvolvimento de sensores ultrassensíveis, materiais magnéticos inéditos, sistemas ópticos avançados e até novos tipos de computadores quânticos.

Segundo os pesquisadores, o próximo passo será entender o que acontece quando milhões desses defeitos forem organizados em padrões específicos.

A expectativa é que comportamentos coletivos completamente novos emerjam dessa escala.

O estudo ainda tem limitações importantes

Apesar do entusiasmo, os próprios autores fazem ressalvas importantes.

Até agora, os testes foram realizados em apenas um tipo de cristal. Ainda não existe garantia de que a técnica funcionará da mesma maneira em outros materiais.

Além disso, os 40 mil defeitos produzidos representam apenas uma demonstração de controle e escalabilidade. Nenhum dispositivo funcional foi construído até o momento usando esse método.

Também existe uma barreira prática: os experimentos dependem de microscópios extremamente sofisticados instalados no Oak Ridge National Laboratory, um dos laboratórios mais avançados do mundo.

Ou seja: ainda estamos longe de ver essa tecnologia chegando à indústria.

Um possível divisor de águas para a física quântica

Computação Quântica7
© Universidad de Tokio

Mesmo assim, muitos pesquisadores consideram que o trabalho marca uma mudança conceitual profunda.

Até agora, a engenharia atômica tridimensional em temperatura ambiente era vista quase como ficção científica. O estudo demonstra que ela é fisicamente possível.

Se o método conseguir ser expandido para outros cristais e escalado industrialmente, a fabricação de materiais quânticos poderá deixar de ser um processo artesanal de laboratório e se transformar em algo próximo de produção em série.

Para Klein, as possibilidades abertas são enormes. Entre elas estão novas tecnologias ópticas, sistemas magnéticos avançados e formas inéditas de matéria capazes de revelar fenômenos físicos que ainda nem foram observados pela ciência.

 

[ Fonte: Muy Interesante ]

 

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