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Ciência

Sedimentos antigos da Colômbia esconderam uma descoberta climática inquietante

Sedimentos escondidos nos Andes guardavam pistas de um antigo período quente da Terra — e os resultados sugerem que os trópicos podem sofrer muito mais do que imaginávamos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando se fala em aquecimento global, quase toda a atenção costuma se concentrar nos polos, nas geleiras derretendo e no avanço do nível do mar. Mas um novo estudo indica que outra região do planeta pode esconder uma ameaça ainda mais delicada. Ao investigar um período remoto da história da Terra, pesquisadores encontraram sinais de que os trópicos responderam ao aumento de CO₂ de maneira muito mais extrema do que os oceanos. E isso pode mudar a forma como entendemos o futuro climático.

Um período antigo da Terra pode estar antecipando o que vem pela frente

Para tentar entender como o planeta reage quando o dióxido de carbono atinge níveis parecidos com os atuais, cientistas decidiram voltar milhões de anos no passado. O período analisado foi o Plioceno, uma época entre aproximadamente 2,5 e 5 milhões de anos atrás, quando a Terra apresentava temperaturas mais elevadas e concentrações atmosféricas de CO₂ semelhantes às de hoje.

Naquele cenário, grandes regiões geladas eram muito menores do que atualmente. A Groenlândia, por exemplo, possuía muito menos gelo. Por isso, o Plioceno se transformou em uma espécie de “janela natural” para observar como o sistema climático pode reagir ao aquecimento global moderno.

Mas os pesquisadores decidiram investigar algo que costuma receber menos atenção nos modelos climáticos: o comportamento das regiões tropicais continentais.

Para isso, o estudo analisou um registro geológico extremamente raro encontrado na bacia de Bogotá, na Colômbia. Durante milhões de anos, essa região acumulou sedimentos de maneira contínua, preservando sinais químicos microscópicos capazes de revelar detalhes sobre o clima antigo.

Os cientistas estudaram compostos orgânicos produzidos por bactérias que permaneceram presos nessas camadas subterrâneas. A partir dessas moléculas, foi possível reconstruir as temperaturas terrestres dos Andes tropicais ao longo da transição entre o Plioceno e o Pleistoceno — período em que começaram as grandes glaciações do hemisfério norte.

O resultado chamou atenção imediatamente.

Enquanto os oceanos tropicais apresentaram aquecimento estimado em cerca de dois graus acima dos níveis atuais, as áreas continentais tropicais registraram temperaturas muito maiores, quase o dobro em alguns casos.

Isso sugere que o aquecimento não acontece de forma uniforme entre mar e terra.

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© Maria Fernanda Almanza

Os trópicos podem estar mais vulneráveis do que muitos modelos indicam

A descoberta preocupa porque a maior parte da população mundial vive justamente em áreas continentais. Se as terras tropicais amplificarem o aquecimento mais intensamente que os oceanos, os impactos humanos podem se tornar muito mais severos do que diversas projeções atuais sugerem.

E existe outro detalhe importante escondido no estudo.

Os dados do Plioceno indicam que o Oceano Pacífico apresentava condições parecidas com um evento de El Niño quase permanente. Hoje, esse fenômeno climático já está associado a ondas de calor, secas prolongadas e mudanças intensas nos regimes de chuva em diversas regiões tropicais.

Caso o aquecimento global aumente a frequência ou intensidade desses eventos no futuro, o efeito combinado pode empurrar alguns ecossistemas e populações para limites críticos.

O mais curioso é que os trópicos costumam aparecer menos nas grandes discussões climáticas internacionais. Durante décadas, o foco principal ficou concentrado nas regiões polares, tanto pela velocidade do derretimento quanto pela importância simbólica das geleiras.

Só que existe um problema importante nessa lógica.

Em regiões que já operam naturalmente com temperaturas elevadas, pequenos aumentos adicionais podem produzir consequências desproporcionais sobre agricultura, saúde pública, disponibilidade de água e biodiversidade. Em outras palavras: não é necessário um aumento gigantesco para provocar impactos severos.

E isso se torna ainda mais relevante quando lembramos que aproximadamente 40% da população mundial vive em regiões tropicais.

O alerta enterrado sob os Andes vai além da ciência do clima

Os pesquisadores afirmam que estudar o Plioceno não é apenas um exercício acadêmico sobre o passado remoto da Terra. Na prática, trata-se de uma forma de testar até onde nossos modelos climáticos atuais conseguem prever o comportamento do planeta.

Se há milhões de anos os continentes tropicais aqueceram muito mais do que os oceanos sob concentrações semelhantes de CO₂, assumir que agora será diferente exige evidências muito sólidas.

E talvez essa seja a parte mais desconfortável de toda a pesquisa.

Porque o estudo sugere que os trópicos podem estar sendo subestimados em diversos cenários climáticos globais. Isso significa que algumas regiões densamente povoadas talvez estejam mais vulneráveis do que imaginávamos até agora.

Ao mesmo tempo, o trabalho reforça algo que a ciência vem descobrindo repetidamente nos últimos anos: muitas respostas sobre o futuro ainda estão escondidas no passado profundo do planeta.

Às vezes, camadas de sedimentos enterradas sob montanhas antigas conseguem revelar mais sobre o nosso futuro climático do que muitos modelos teóricos modernos.

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