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Ciência

Psicólogos explicam por que algumas pessoas ficam desconfortáveis ao receber elogios

Algumas pessoas aprendem cedo a viver sem validação. O problema é que isso pode moldar a autoestima de formas silenciosas, difíceis de perceber… e ainda mais difíceis de mudar.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Tem gente que trava ao receber um simples elogio. Minimiza conquistas, muda de assunto ou reage com desconforto diante de qualquer reconhecimento. À primeira vista, isso pode parecer apenas timidez ou modéstia. Mas a psicologia vem mostrando que, em muitos casos, existe algo muito mais profundo por trás dessa reação. A ausência de validação durante a infância pode deixar marcas emocionais que atravessam décadas — embora também possa criar formas inesperadas de resistência emocional.

Por que algumas pessoas têm dificuldade para aceitar elogios

Nem todo mundo reage da mesma forma quando recebe reconhecimento. Enquanto algumas pessoas gostam de ser elogiadas, outras parecem desconfortáveis quase instantaneamente. Frases como “não foi nada”, “qualquer um faria isso” ou “dei sorte” acabam surgindo automaticamente.

Segundo especialistas em autoestima, esse comportamento muitas vezes nasce muito antes da vida adulta. Crianças que cresceram em ambientes onde elogios eram raros — ou inexistentes — podem desenvolver uma relação complicada com validação emocional. Não necessariamente porque rejeitam carinho ou aprovação, mas porque nunca aprenderam a enxergar isso como algo natural.

A infância tem um papel decisivo na construção da autoestima. Pequenos reconhecimentos, palavras de incentivo e demonstrações de apoio ajudam a criar uma percepção interna mais estável sobre valor pessoal. Quando isso falta, muitas pessoas passam a se avaliar de maneira excessivamente crítica.

E aí acontece algo curioso: o elogio deixa de ser confortável. Em vez de gerar satisfação, pode despertar desconfiança. Algumas pessoas pensam que o outro está exagerando, sendo educado por obrigação ou simplesmente não conhece seus defeitos de verdade.

Pesquisas na área de psicologia indicam que indivíduos com autoestima mais frágil tendem a resistir mais ao reconhecimento, especialmente quando sentem que ele cria expectativas difíceis de sustentar. Para quem cresceu associando valor pessoal a cobrança constante, um elogio pode soar menos como carinho e mais como pressão.

Quando o elogio também pode virar um problema

Mas existe outro detalhe importante nessa história: nem todo elogio produz efeitos positivos. A maneira como o reconhecimento é feito também influencia profundamente o desenvolvimento emocional.

Estudos conduzidos pelo pesquisador Eddie Brummelman mostraram que elogios exagerados podem ter consequências inesperadas, principalmente em crianças com baixa autoestima. Comentários que colocam alguém como “perfeito”, “extraordinário” ou “genial” podem aumentar o medo de errar.

A lógica é desconfortável, mas faz sentido. Quando uma criança sente que precisa corresponder sempre a uma imagem idealizada, ela pode começar a evitar desafios por medo de decepcionar os outros. O reconhecimento deixa de ser motivador e passa a funcionar como uma cobrança invisível.

Por isso, muitos psicólogos defendem elogios mais realistas e específicos. Valorizar esforço, persistência ou dedicação costuma gerar efeitos mais saudáveis do que criar rótulos grandiosos sobre inteligência ou talento.

O objetivo não é eliminar críticas nem transformar qualquer ação em motivo de aplauso constante. O ponto central parece estar no equilíbrio: construir uma validação emocional verdadeira, capaz de fortalecer a confiança sem criar dependência emocional ou expectativas impossíveis.

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© Goffkein.Pro – Shutterstock

A força emocional que algumas pessoas desenvolvem no silêncio

Curiosamente, crescer sem muitos elogios não leva todas as pessoas ao mesmo destino emocional. Em alguns casos, essa ausência acaba desenvolvendo uma capacidade incomum de validação interna.

Na psicologia, esse conceito descreve a habilidade de reconhecer o próprio valor sem depender o tempo inteiro da aprovação dos outros. Não significa rejeitar afeto ou viver isolado emocionalmente. Significa conseguir seguir em frente mesmo quando ninguém está olhando, elogiando ou recompensando.

A teoria da autodeterminação, bastante conhecida dentro da psicologia moderna, sugere que motivação profunda costuma surgir da combinação entre autonomia, competência e relações saudáveis. Nesse cenário, confiar no próprio julgamento se torna uma habilidade importante.

Muitas pessoas que cresceram com pouca validação acabam desenvolvendo essa força quase por necessidade. Aprendem a sustentar disciplina, criar rotina e continuar tentando sem esperar reconhecimento constante.

Mas existe um lado delicado nisso.

Quando a autossuficiência emocional fica extrema, ela pode se transformar numa armadura difícil de abandonar. Algumas pessoas passam tanto tempo sobrevivendo sem apoio que começam a acreditar que não precisam mais dele. E aí surge o risco do isolamento emocional, do cansaço silencioso e da dificuldade de aproveitar as próprias conquistas.

O equilíbrio entre independência e reconhecimento

A autonomia emocional saudável não significa rejeitar elogios nem depender completamente deles. O equilíbrio parece estar justamente na capacidade de aceitar reconhecimento sem transformar isso no centro da autoestima.

Por isso, aprender a receber um simples “parabéns” pode ser surpreendentemente difícil para algumas pessoas adultas. Não porque sejam ingratas ou frias, mas porque passaram anos aprendendo a sobreviver sem validação.

Em muitos casos, o primeiro passo nem envolve grandes mudanças emocionais. Às vezes, começa com algo muito menor: parar de minimizar conquistas, deixar de justificar cada elogio… e simplesmente responder “obrigado”.

Porque, para algumas pessoas, aceitar reconhecimento também é uma forma de reaprender o próprio valor.

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