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Ciência

O Pentágono quer criar um sangue artificial que pode mudar para sempre o atendimento de emergências

Cientistas americanos desenvolvem uma alternativa ao sangue humano que poderá ser armazenada durante anos sem refrigeração. A tecnologia promete transformar o atendimento de feridos em situações extremas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Em uma emergência médica, poucos minutos podem determinar se uma pessoa sobrevive a uma hemorragia grave. O problema é que transportar sangue até regiões isoladas, zonas de guerra ou locais atingidos por desastres exige uma logística complexa. Agora, uma iniciativa financiada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos pretende eliminar parte dessas dificuldades com uma tecnologia capaz de reproduzir funções essenciais do sangue humano.

O projeto de US$ 73 milhões que pretende revolucionar as transfusões

O Pentágono quer criar um sangue artificial que pode mudar para sempre o atendimento de emergências
© Pexels

O Pentágono está investindo no desenvolvimento de uma alternativa ao sangue tradicional que poderá ser transportada sem refrigeração e preparada rapidamente em situações de emergência.

A iniciativa faz parte do programa RAPIID, coordenado pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos Estados Unidos (DARPA), responsável por financiar tecnologias de alto risco e potencial transformador.

Com financiamento anunciado de aproximadamente US$ 73 milhões, o projeto pretende desenvolver produtos sanguíneos sintéticos capazes de permanecer armazenados durante longos períodos.

O objetivo não é fabricar uma cópia perfeita do sangue humano, mas criar um conjunto de componentes que reproduzam suas funções mais importantes.

Isso inclui transportar oxigênio, controlar hemorragias, restaurar o volume sanguíneo e auxiliar na coagulação.

Segundo a apresentação oficial do programa RAPIID pela DARPA, a meta é desenvolver um sistema que possa receber autorização regulatória e começar a ser utilizado em operações militares a partir do ano fiscal de 2029.

O prazo, entretanto, representa um objetivo de desenvolvimento, não uma garantia de disponibilidade.

Como transformar sangue em um produto que pode durar anos?

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores é reproduzir as diferentes funções dos componentes sanguíneos.

O plasma, responsável por transportar substâncias e contribuir para a coagulação, pode passar por um processo chamado liofilização.

Essa técnica remove a água do material, permitindo sua conservação em formato seco. Posteriormente, o produto pode ser reconstituído com um líquido apropriado.

As plaquetas representam outro desafio. Elas participam da formação de coágulos que interrompem sangramentos, mas são particularmente difíceis de conservar por longos períodos.

O maior obstáculo está nos glóbulos vermelhos, responsáveis por transportar oxigênio aos tecidos.

Uma das tecnologias investigadas é o ErythroMer, desenvolvido pela empresa americana KaloCyte.

O produto utiliza hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio, encapsulada em nanopartículas lipídicas.

Essa estrutura procura imitar parte das funções dos glóbulos vermelhos e reduzir problemas associados à presença de hemoglobina livre na circulação.

A proposta é que o material possa ser armazenado em temperatura ambiente por até dois anos, conforme as características anunciadas pelos desenvolvedores.

Entretanto, a tecnologia ainda precisa demonstrar segurança e eficácia em estudos clínicos antes de ser utilizada rotineiramente em seres humanos.

Por que os primeiros minutos após uma hemorragia são decisivos?

Em situações de combate, transportar bolsas de sangue até soldados gravemente feridos pode ser extremamente complicado.

O sangue convencional exige condições específicas de armazenamento, possui validade limitada e depende de estoques abastecidos por doadores.

Um estudo publicado na revista científica JAMA, envolvendo feridos em operações militares no Afeganistão, identificou uma associação importante entre o tempo necessário para receber transfusões e as chances de sobrevivência.

Os pesquisadores destacaram uma janela crítica de aproximadamente 36 minutos em determinados casos analisados.

Isso não significa que exista um limite universal de sobrevivência após esse período. A gravidade da lesão, a intensidade do sangramento e a rapidez do atendimento influenciam os resultados.

A possibilidade de transportar componentes sanguíneos secos diretamente nas mochilas de equipes médicas poderia reduzir a dependência de bancos de sangue e sistemas de refrigeração.

A tecnologia também poderia salvar vidas fora das guerras

Embora o financiamento tenha origem militar, as possíveis aplicações ultrapassam os campos de batalha.

Ambulâncias, helicópteros de resgate, comunidades isoladas e regiões atingidas por terremotos ou enchentes poderiam se beneficiar de produtos sanguíneos mais fáceis de armazenar.

No Brasil, por exemplo, uma tecnologia semelhante poderia futuramente ajudar equipes que atendem populações em áreas remotas da Amazônia ou municípios com acesso limitado a hospitais especializados.

Essa possibilidade, porém, dependeria de aprovação sanitária, custos acessíveis e infraestrutura adequada.

A Associação para o Avanço do Sangue e das Bioterapias (AABB) destaca que o programa busca integrar diferentes componentes sanguíneos a sistemas de administração e diagnóstico adequados para situações extremas.

A proposta é oferecer uma alternativa emergencial quando o sangue convencional não estiver disponível.

Quando o sangue artificial poderá ser utilizado em humanos?

O programa RAPIID foi estruturado para durar 36 meses, divididos em duas etapas.

Nos primeiros 12 meses, os pesquisadores deverão concentrar esforços em testes pré-clínicos de segurança e eficácia, além da preparação dos processos de fabricação.

Os 24 meses seguintes serão dedicados ao avanço dos componentes para estudos clínicos iniciais e ao desenvolvimento das estratégias regulatórias e comerciais.

Para que o sistema seja disponibilizado nos Estados Unidos, será necessário cumprir as exigências da Food and Drug Administration (FDA), agência responsável pela regulamentação de medicamentos e produtos médicos.

Ainda existem obstáculos importantes, incluindo possíveis reações adversas, capacidade de produção industrial e compatibilidade entre os diferentes componentes.

Por enquanto, o sangue artificial desenvolvido nesse programa não substitui as transfusões convencionais.

Se os resultados forem positivos, entretanto, a tecnologia poderá transformar o atendimento de vítimas de hemorragias graves, especialmente em lugares onde conseguir uma bolsa de sangue ainda representa um enorme desafio.

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