O cérebro humano é uma máquina biologicamente cara. Embora represente apenas uma pequena parcela do peso corporal, exige uma quantidade impressionante de energia para funcionar. Como nossos ancestrais conseguiram sustentar um órgão cada vez maior milhões de anos antes da agricultura? Um novo estudo propõe uma resposta que desafia parte da narrativa tradicional sobre a evolução humana e ajuda até a explicar certos desejos alimentares atuais.
O cérebro cresceu e criou um enorme problema energético

Ao longo de aproximadamente quatro milhões de anos, uma transformação extraordinária aconteceu na linhagem humana. O cérebro, que teria cerca de 300 gramas entre alguns dos primeiros hominídeos, chegou a aproximadamente 1.500 gramas nos humanos modernos.
Esse crescimento trouxe vantagens cognitivas evidentes, mas também criou uma dificuldade: era necessário encontrar energia suficiente para manter um órgão cada vez mais exigente.
É justamente nesse ponto que pesquisadores do Centro Charles Perkins, da Universidade de Sydney, na Austrália, apresentam uma nova perspectiva. Em estudo publicado na revista Science, eles sugerem que os açúcares naturais encontrados em alimentos disponíveis no ambiente tiveram importância fundamental nesse processo.
Frutas, mel e outras fontes naturais de carboidratos podem ter fornecido parte significativa da glicose necessária para sustentar a expansão cerebral muito antes de nossos ancestrais dominarem amplamente o cozimento.
A hipótese adiciona uma nova peça ao quebra-cabeça da evolução humana. Durante décadas, grande parte das discussões sobre alimentação ancestral colocou a carne em posição privilegiada, associando seu consumo ao crescimento cerebral.
O novo trabalho não significa que a carne tenha sido irrelevante. Em vez disso, chama atenção para outro componente essencial: um cérebro grande precisa de energia, e sua principal fonte energética é justamente a glicose.
Os cientistas voltaram quatro milhões de anos no tempo
Para investigar essa relação, os pesquisadores desenvolveram um modelo que percorre aproximadamente quatro milhões de anos da evolução humana.
A pergunta central era relativamente simples: os carboidratos disponíveis na alimentação dos nossos ancestrais seriam suficientes para atender às necessidades crescentes de glicose de um cérebro em expansão?
Responder a isso exigiu reunir evidências de diferentes áreas.
Os cientistas combinaram informações sobre metabolismo e fisiologia humana com dados sobre composição dos alimentos, genética, dietas de outros primatas, morfologia dentária, arqueologia e estudos de isótopos encontrados em fósseis.
A equipe também calculou aquilo que chamou de “demanda obrigatória de glicose”. E o cérebro não é o único consumidor dessa energia.
Glóbulos vermelhos, rins e tecidos ligados à reprodução também dependem dela. Durante a gravidez e a amamentação, a conta energética aumenta ainda mais, porque entram nessa equação estruturas e processos como feto, placenta e produção de leite.
A partir desses cálculos, os pesquisadores compararam as necessidades fisiológicas com as fontes alimentares que provavelmente estavam disponíveis em diferentes períodos da evolução.
Foi então que um padrão começou a aparecer.
Antes dos tubérculos cozidos, as frutas podem ter sido decisivas

O modelo sugere que os primeiros hominídeos provavelmente dependiam bastante de alimentos ricos em carboidratos. Entre eles, as frutas teriam ocupado uma posição particularmente importante.
Isso faria sentido em um período no qual o cozimento ainda não havia transformado radicalmente a capacidade humana de aproveitar outras fontes energéticas.
Posteriormente, com o domínio mais amplo do fogo e o processamento térmico dos alimentos, outra categoria teria ganhado espaço: os vegetais ricos em amido.
Tubérculos e estruturas subterrâneas, como inhames selvagens, rizomas de nenúfar e a chamada batata africana, poderiam oferecer quantidades importantes de carboidratos. Cozinhar esses alimentos facilita a digestão do amido e permite que o organismo aproveite sua energia de maneira mais eficiente.
Essa transição pode ter ampliado consideravelmente o cardápio energético dos ancestrais humanos.
Assim, em vez de uma história evolutiva impulsionada por um único alimento, surge um cenário mais complexo. Diferentes fontes nutricionais podem ter desempenhado papéis complementares conforme ambientes, tecnologias e necessidades fisiológicas mudavam.
E existe um detalhe particularmente interessante: essa dependência ancestral de alimentos naturalmente doces também pode ajudar a entender por que o ser humano moderno apresenta uma atração tão forte pelo sabor doce.
A gravidez revela outra peça importante dessa história

Um dos aspectos destacados pela pesquisa é que a evolução cerebral não pode ser analisada apenas considerando as necessidades energéticas de um adulto.
A reprodução muda significativamente essa equação.
Mulheres em idade reprodutiva apresentam demandas específicas de glicose, especialmente durante a gravidez e a amamentação. O desenvolvimento fetal, a placenta e posteriormente a produção de leite exigem recursos adicionais.
Isso significa que a disponibilidade de carboidratos pode ter sido relevante não apenas para alimentar cérebros adultos maiores, mas também para permitir o desenvolvimento de novas gerações com cérebros progressivamente mais exigentes.
A pesquisa, portanto, oferece uma visão diferente sobre um nutriente que atualmente costuma aparecer associado principalmente aos excessos da alimentação moderna.
Isso não significa que consumir grandes quantidades de açúcar refinado seja benéfico. Os pesquisadores estão tratando de açúcares e carboidratos naturais dentro de um contexto evolutivo completamente diferente daquele encontrado em alimentos ultraprocessados atuais.
A descoberta aponta para algo mais profundo: durante milhões de anos, conseguir glicose suficiente pode ter sido um dos desafios fundamentais enfrentados pelos nossos ancestrais.
E alimentos aparentemente simples, encontrados em árvores, colmeias e posteriormente debaixo da terra, podem ter fornecido parte do combustível necessário para construir uma das estruturas mais complexas conhecidas pela ciência: o cérebro humano.
[Fonte: Gazeta do povo]