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Ciência

O nível do mar sobe no planeta inteiro — mas pode cair na Groenlândia, e a ciência explica por que essa exceção pode redesenhar costas, rotas marítimas e ecossistemas

Enquanto o aquecimento global eleva os oceanos e ameaça milhões de pessoas com enchentes e erosão costeira, pesquisadores descobriram que a Groenlândia deve viver o fenômeno oposto. Um novo estudo mostra que o nível do mar ao redor da ilha pode recuar até metros nas próximas décadas, resultado de um delicado jogo entre gelo, gravidade e a própria crosta terrestre.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O aumento das temperaturas globais já está empurrando o nível do mar para cima em praticamente todo o planeta. Esse avanço coloca cidades costeiras, deltas e ilhas em situação cada vez mais vulnerável. Mas, em meio a esse cenário preocupante, a Groenlândia aparece como uma exceção intrigante: apesar do derretimento acelerado de sua gigantesca camada de gelo, o mar ao redor da ilha deve baixar.

A conclusão vem de um estudo conduzido por cientistas do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, ligado à Columbia Climate School, e publicado na revista Science Communications. Segundo os pesquisadores, esse recuo local poderá trazer impactos diretos para zonas costeiras, infraestrutura portuária, rotas de navegação e até para a pesca.

Projeções que vão na contramão da tendência global

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© https://guidetogreenland.com/

De acordo com as simulações, em um cenário de baixas emissões de gases de efeito estufa, o nível do mar em torno da Groenlândia pode cair cerca de 0,9 metro até o ano de 2100. Se o mundo seguir uma trajetória de altas emissões, essa redução pode chegar a aproximadamente 2,5 metros.

À primeira vista, o resultado parece contraditório. Afinal, o derretimento do gelo da Groenlândia é um dos principais motores da elevação global do nível do mar. No entanto, é justamente essa perda de massa que desencadeia os mecanismos responsáveis pela queda regional das águas.

Os autores ressaltam que essa mudança não representa um alívio para o restante do planeta. Globalmente, os oceanos continuam subindo — o que muda é a forma como esses efeitos se distribuem geograficamente.

Quando a crosta terrestre começa a se levantar

Um dos fatores-chave é o chamado ajuste isostático glacial. Durante milhares de anos, o enorme peso da camada de gelo pressionou a crosta da Groenlândia para baixo. À medida que esse gelo desaparece, o solo começa lentamente a se elevar.

A coautora do estudo, Jacqueline Austermann, compara o processo à descompressão de um colchão viscoelástico quando alguém se levanta: a superfície retorna gradualmente à sua posição original depois de ter sido comprimida por muito tempo.

Esse movimento de soerguimento do terreno faz com que o nível relativo do mar diminua ao longo da costa groenlandesa.

A gravidade também entra na equação

Além da resposta da crosta, existe outro efeito menos intuitivo: a gravidade. Segundo a autora principal do trabalho, Lauren Lewright, grandes massas de gelo exercem atração gravitacional sobre o oceano, puxando a água em sua direção.

“Quando a camada de gelo é muito grande, ela tem muita massa. A superfície do mar é atraída para a capa de gelo por essa força gravitacional”, explica. “Quando a camada perde massa, essa atração diminui, o que se traduz em uma queda do nível do mar.”

A combinação entre o levantamento do solo e a redução dessa atração gravitacional pode explicar até 30% da futura diminuição do nível do mar na Groenlândia.

Impactos locais em um planeta que continua a aquecer

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© Unsplash

Para os pesquisadores, entender esses processos é essencial para aprimorar modelos climáticos e planejar adaptações regionais. Um recuo do mar pode alterar linhas costeiras, exigir ajustes em portos e infraestrutura e modificar habitats marinhos que sustentam atividades como a pesca.

Ao mesmo tempo, o estudo reforça uma mensagem central da ciência do clima: o aquecimento global não age de forma uniforme. Ele desencadeia respostas complexas que envolvem gelo, oceanos, gravidade e a própria crosta do planeta.

Mesmo que o mar recue em torno da Groenlândia, o panorama global segue claro. A elevação dos oceanos continua sendo uma das consequências mais graves das mudanças climáticas — e compreender suas variações regionais será decisivo para enfrentar os desafios que já estão em curso.

 

[ Fonte: Euronews ]

 

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