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Tecnologia

O que é um computador quântico e por que ele promete resolver o que hoje parece impossível, segundo um cientista do Instituto Weizmann de Ciências

Roee Ozeri, criador do primeiro computador quântico de Israel, explica como essa tecnologia pode acelerar a criação de novos medicamentos, detectar tumores em estágios iniciais e inaugurar uma revolução científica sem precedentes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A revolução tecnológica que pode redefinir a próxima era já começou — e ela acontece no mundo invisível das partículas subatômicas. Os computadores quânticos, capazes de processar informação de maneira completamente diferente das máquinas convencionais, prometem resolver problemas que hoje são inacessíveis até aos supercomputadores mais potentes.

Em entrevista exclusiva ao Infobae, o físico Roee Ozeri, vice-presidente do Instituto Weizmann de Ciências e criador do primeiro computador quântico israelense, falou sobre o impacto global dessa nova fronteira científica. “A ciência é uma ferramenta maravilhosa para construir pontes entre nações, porque é um idioma universal”, afirma.

Segundo Ozeri, a computação quântica não é apenas um salto de velocidade — é uma mudança de paradigma: “Essas máquinas vão enfrentar cálculos que nenhuma outra tecnologia consegue sequer começar a resolver”.

O que torna um computador quântico diferente

Teletransporte Quântico (2)
© iStock

Enquanto os computadores tradicionais operam com bits, que assumem o valor de 0 ou 1, os quânticos trabalham com qubits — partículas minúsculas, como átomos ou elétrons, que podem representar 0 e 1 ao mesmo tempo graças às leis da mecânica quântica.

Essa superposição permite que o computador explore milhões de combinações simultâneas, acelerando cálculos de complexidade inimaginável. “O hardware quântico é completamente diferente, porque usa blocos fundamentais que seguem leis da física quântica”, explica Ozeri.

Com essa abordagem, torna-se possível simular moléculas complexas, projetar novos medicamentos e materiais, otimizar rotas logísticas ou resolver problemas criptográficos que garantem a segurança digital global. “Os computadores quânticos poderão criar novos compostos químicos de forma eficiente e terão impacto direto na cibersegurança”, acrescenta o físico.

A revolução que ainda está no começo

A computação quântica está em uma fase inicial, comparável à era dos tubos de vácuo nos anos 1950. “Estamos apenas vendo a ponta do iceberg”, diz Ozeri. “Em 30 ou 40 anos, as aplicações reais surgirão em áreas que hoje nem imaginamos.”

Entre os setores mais promissores estão a medicina e a biotecnologia. Essas máquinas permitirão executar simulações químicas e biológicas com precisão inédita, acelerando o desenvolvimento de remédios e terapias personalizadas.

Outro avanço vem dos sensores quânticos, capazes de detectar campos magnéticos e elétricos com altíssima sensibilidade. Essa tecnologia poderá identificar tumores muito antes dos métodos atuais, inclusive em casos de câncer metastático. “As aplicações médicas serão transformadoras”, resume Ozeri.

Os desafios de construir uma máquina quântica

Apesar do potencial, construir um computador quântico funcional é uma das tarefas mais complexas da ciência moderna. As máquinas atuais operam com dezenas ou centenas de qubits, mas, para atingir todo o potencial previsto, será preciso chegar a milhões.

“Todas as tecnologias enfrentam o mesmo desafio: escalar. Controlar cada qubit com precisão é incrivelmente difícil”, explica Ozeri.

Os qubits precisam ser isolados do ambiente — presos em vácuo absoluto e resfriados a temperaturas próximas do zero absoluto — para manter sua coerência quântica. Israel utiliza íons presos por feixes de laser, uma das abordagens mais estáveis.

“Nossa primeira máquina tinha apenas cinco qubits. Hoje chegamos a cinquenta, e isso já é um avanço enorme. O futuro está em ampliar essa escala”, diz o pesquisador.

Uma corrida tecnológica e geopolítica

China Ativa Arma Quântica (2)
© Forschungszentrum Jülich / Sascha Kreklau

Governos e empresas enxergam a computação quântica como uma questão estratégica. “Os países entenderam que dominar essa tecnologia garantirá uma vantagem decisiva”, afirma Ozeri.

Estados Unidos e China lideram os investimentos, seguidos por União Europeia, Reino Unido, Japão, Austrália, Israel e Índia. O investimento global em pesquisa e desenvolvimento já ultrapassa US$ 60 bilhões.

No setor privado, gigantes como Google, IBM, Amazon e Microsoft disputam a liderança, enquanto startups de base científica surgem em ritmo acelerado. Em Israel, cinco empresas derivadas do Instituto Weizmann estão levando as descobertas do laboratório para o mercado.

“Autonomia tecnológica será essencial. Os países que não dominarem essa ciência poderão ficar dependentes de quem a controlar”, alerta Ozeri.

Da teoria à vida cotidiana

Embora ainda pareça distante, o impacto quântico já começa a ser sentido. Na indústria farmacêutica, a possibilidade de simular reações químicas exatas pode reduzir de décadas para meses o tempo de desenvolvimento de novos medicamentos.

Na segurança digital, as máquinas quânticas poderão quebrar os sistemas de criptografia atuais — motivo pelo qual governos e universidades já trabalham em novos protocolos de criptografia quântica, capazes de resistir a esses ataques.

Ozeri prevê que, nas próximas décadas, veremos a tecnologia quântica aplicada em finanças, logística e inteligência artificial, criando soluções impossíveis com as ferramentas atuais.

A ciência como ponte entre nações

Para além da tecnologia, o cientista vê a pesquisa como um instrumento de união. “A curiosidade é o motor da humanidade. A ciência é uma forma de diálogo”, diz. Ele incentiva os jovens a seguir carreiras científicas e a questionar o impossível.

“Se alguém experiente disser que algo é possível, provavelmente está certo. Mas se disser que é impossível, procure uma maneira de provar o contrário”, ensina.

Quanto à relação entre tecnologia e humanidade, Ozeri é otimista: “A inovação nunca foi inimiga do homem. É o reflexo da nossa criatividade. A tecnologia é nossa companheira, não nossa substituta”.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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