A relação entre o intestino e o cérebro vem ganhando destaque na medicina humana há anos, mas agora a ciência começa a revelar que essa conexão também se aplica aos animais de estimação. Um estudo recente do Canadá identificou padrões bacterianos que parecem influenciar o comportamento canino, abrindo caminho para terapias inovadoras que poderiam transformar a forma como cuidamos da saúde mental dos cães.
Como o estudo foi conduzido
O trabalho foi liderado por Sarita Pellowe, especialista em comportamento animal da Memorial University of Newfoundland. Para recrutar os participantes, a equipe convidou tutores de cães por meio de redes sociais, clínicas veterinárias e estabelecimentos locais em St. John’s.
De quase 500 questionários respondidos, apenas 72 cães foram selecionados após critérios rigorosos: idade adequada, dieta estável e ambiente de vida consistente. Os tutores preencheram formulários detalhados sobre a saúde e o comportamento dos animais, enquanto os pesquisadores coletaram amostras fecais que foram preservadas a -20 °C para análise genética e bioinformática.
Utilizando sequenciamento de 16S rRNA e ferramentas avançadas de aprendizado de máquina, os cientistas compararam a composição microbiana de cães com baixos e altos níveis de ansiedade ou agressividade.
A bactéria Blautia em destaque
O achado mais notável foi a associação do gênero bacteriano Blautia com cães considerados mais ansiosos. Esses animais apresentaram proporções elevadas dessa bactéria em comparação com famílias como Oscillospiraceae e Negativicutes.
Com o auxílio do modelo estatístico Selbal, os pesquisadores conseguiram prever a probabilidade de um cão pertencer ao grupo ansioso com alto grau de precisão (AUC-ROC de 0,856). Isso reforça o potencial de se usar a microbiota intestinal como biomarcador de comportamento.

Limites e cautela
Apesar dos resultados promissores, os próprios autores alertam que o estudo é observacional. Isso significa que não é possível concluir, por enquanto, que modificar a flora intestinal — por meio de probióticos ou dietas específicas — traga melhora imediata no comportamento canino.
Outros fatores, como a interpretação dos tutores, o ambiente doméstico e até o estilo de vida, também podem influenciar fortemente o comportamento dos cães. Para confirmar uma relação causal, serão necessários ensaios clínicos de larga escala, com controles rigorosos e análises no nível de espécies bacterianas.
Perspectivas para terapias futuras
Se pesquisas futuras validarem essa conexão, manipular a microbiota intestinal poderá se tornar uma estratégia complementar aos métodos tradicionais de adestramento e terapia comportamental. Em declarações, Pellowe destacou que encontrar de forma consistente a presença de Blautia em cães ansiosos é um passo significativo para compreender a comunicação entre intestino e cérebro em animais de companhia.
A descoberta sugere que, no futuro, cuidar da saúde digestiva dos cães poderá ser também uma forma de promover seu bem-estar emocional, oferecendo novas alternativas para lidar com ansiedade e agressividade em pets.