O embate entre Washington e Brasília colocou o PIX no centro de uma disputa geopolítica que vai muito além da tecnologia financeira. Nos bastidores, grandes empresas de tecnologia, interesses comerciais bilionários e questões de soberania digital ajudam a explicar por que o Brasil entrou na mira — e a Índia, não.
Dois sistemas, origens parecidas

O Unified Payments Interface (UPI) surgiu na Índia em 2016, quatro anos antes do PIX, com proposta semelhante: transferências e pagamentos instantâneos, gratuitos, 24 horas por dia e sem dados bancários sensíveis. Foi parte de um projeto de digitalização em larga escala, incluindo identidade digital e redução do uso de dinheiro físico.
Na Índia, o sistema foi criado por um consórcio privado reunido pelo Banco Central, com adesão voluntária. No Brasil, o PIX nasceu dentro do Banco Central, com participação obrigatória de grandes instituições financeiras — fator que ajudou a acelerar a adoção, atingindo quase 74% da população em três anos.
Vantagens e recursos do UPI
Now India sounds like this 👇
A 🧵 of things you’ll overhear in everyday India.#UPI #UPICulture pic.twitter.com/iPDtzOSePh
— UPI (@UPI_NPCI) July 27, 2025
Por ter sido lançado antes, o UPI incorporou funções que o PIX só adotou depois, como pagamentos automáticos recorrentes. Outras ferramentas ainda não chegaram ao Brasil, como pagamentos offline, úteis em áreas sem internet, e por comando de voz.
A Índia também expandiu o UPI internacionalmente — Butão, Nepal, Cingapura, Emirados Árabes, Sri Lanka e até França — como parte de uma estratégia para criar alternativa ao sistema Swift. O Brasil, por enquanto, só viu iniciativas privadas levarem o PIX para países como Argentina e Paraguai.
Big techs: protagonistas lá, coadjuvantes aqui
No UPI, bancos fornecem as contas, mas transações acontecem em carteiras digitais de terceiros — e duas empresas americanas dominam: Google Pay e PhonePe (do Walmart) respondem por mais de 80% das operações.
Já no PIX, o Banco Central restringiu a atuação de multinacionais. O WhatsApp Pay, por exemplo, teve de suspender sua estreia no Brasil por decisão regulatória. Essa postura favoreceu fintechs e bancos digitais nacionais, mas criou atritos com gigantes americanas.
PIX no radar de Trump

Em julho, o governo dos EUA abriu investigação comercial contra o Brasil, citando indiretamente o PIX como “serviço de pagamento eletrônico desenvolvido pelo governo” que poderia prejudicar empresas americanas. O UPI, mesmo com modelo semelhante, não foi incluído.
Analistas veem no caso brasileiro um incômodo extra para Washington: um sistema público eficiente que limita o espaço de big techs no setor financeiro. Para plataformas como o WhatsApp, dominante no Brasil, mas com pouca penetração nos pagamentos, isso significa um mercado bilionário fora do alcance.
Impacto e inovação
O PIX se tornou referência internacional. Sistemas como o Bre-B, da Colômbia, foram inspirados nele e desenvolvidos com empresas brasileiras. Para o Nobel Paul Krugman, o Brasil “pode ter inventado o futuro do dinheiro” com uma solução barata e quase instantânea.
O efeito foi positivo até para o setor de cartões: a inclusão financeira trouxe novos clientes para bancos, elevando a taxa de crescimento anual do segmento. Movimento parecido ocorreu na Índia com o UPI.
O que está em jogo
A diferença de tratamento dos EUA entre PIX e UPI levanta hipóteses: peso geopolítico da Índia, interesses das big techs e o impacto regulatório mais restritivo do Brasil. Para especialistas, o cenário revela que a disputa não é apenas comercial — é sobre quem controla a infraestrutura do dinheiro no século 21.
[ Fonte: G1.Globo ]