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O que significa ser rico ou classe média no Brasil? A resposta não depende apenas do quanto se ganha, mas também de onde se vive

Estudos mostram que, mesmo com renda modesta, é possível estar no terço mais rico do país — e revelam como os critérios variam entre especialistas e regiões.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A classificação por faixas de renda influencia políticas públicas, debates econômicos e até nossa percepção sobre o lugar que ocupamos na sociedade. No entanto, identificar quem é rico, de classe média ou baixa no Brasil não é tão simples quanto parece. Entre métodos distintos e desigualdades regionais gritantes, o conceito de classe social pode surpreender — e revelar que a elite pode ser numericamente muito menor do que se imagina.

O que dizem os especialistas sobre as faixas de renda

O que significa ser rico ou classe média no Brasil? A resposta não depende apenas do quanto se ganha, mas também de onde se vive
© Pexels

Uma das formas mais comuns de dividir a população brasileira é classificar os 33% mais pobres, os 33% intermediários e os 33% mais ricos. No entanto, o economista Daniel Duque, do FGV Ibre, propõe uma alternativa mais realista: dividir a população em três grupos de aproximadamente 70 milhões de pessoas cada, considerando a renda per capita.

Pelo critério de Duque, quem vive em domicílios com até R$ 880 por pessoa pertence à Classe C. Já aqueles com renda per capita superior a R$ 1.761 por mês estão no terço mais rico do país. Isso significa que uma família com quatro pessoas e renda total de R$ 7.050 já estaria entre os 33% mais abastados da população brasileira.

O economista argumenta que essa forma de análise é mais útil para direcionar políticas sociais. Ele cita o Imposto de Renda como exemplo de política mal calibrada: “Muitas medidas que se dizem voltadas para a classe média acabam beneficiando a faixa mais alta da população”, afirma. Ao isentar até R$ 5 mil, o IR frequentemente beneficia contribuintes que já pertencem ao terço superior da distribuição de renda.

Outro critério: renda familiar total

Já a consultoria Tendências adota uma classificação diferente, baseada na renda total da família, sem dividir pelo número de moradores. De acordo com esse método, quase metade da população brasileira está nas Classes D e E, com renda mensal total de até R$ 3.500.

Pelo mesmo critério, apenas 4% da população faz parte da Classe A. Esse cálculo considera todos os tipos de rendimento, como salários, aposentadorias, pensões, benefícios sociais e outras fontes, incluindo pensões alimentícias, doações, aluguéis e auxílios temporários como seguro-desemprego.

Esse modelo ajuda a entender por que tantas pessoas com renda considerada “alta” em determinadas regiões ainda se percebem como parte da classe média. O contexto, portanto, é crucial.

A renda média e o impacto do lugar onde se vive

Segundo dados mais recentes do IBGE, a renda média mensal do trabalhador brasileiro em 2025 é de R$ 3.457 — o maior nível em mais de dez anos. Esse aumento está ligado à queda da taxa de desemprego, que atingiu 6,2% em maio, e ao crescimento do número de trabalhadores com carteira assinada, que superou 37 milhões.

Contudo, o local onde se vive altera radicalmente a percepção sobre o que é uma renda alta ou baixa. Um levantamento da FGV Social mostra que bairros nobres como o Lago Sul, em Brasília, têm renda média declarada de R$ 39.535 — quase 12 vezes maior que a média nacional. Mesmo a renda média geral da população local, de R$ 23.141, ainda é três vezes superior à de qualquer outro município brasileiro.

Outras cidades com altos indicadores de renda incluem Nova Lima (MG), com R$ 8.897 mensais, e Santana de Parnaíba (SP), com R$ 5.791. Já em Ipixuna do Pará, a renda média mensal é de apenas R$ 71.

Entre as capitais, Florianópolis lidera com renda per capita de R$ 4.215, seguida por Porto Alegre (R$ 3.775) e Vitória (R$ 3.736). Em contraste, cidades do Norte e Nordeste, como Rio Branco, Macapá e Manaus, aparecem entre as últimas posições.

Ser “rico” depende do contexto

Os dados deixam claro: ser considerado de classe média ou da elite no Brasil depende de mais do que números absolutos. O valor que define a classe social de uma pessoa varia conforme a região, o custo de vida e o acesso a serviços básicos. E, em muitos casos, uma renda que coloca alguém no topo nacional pode ainda representar desafios financeiros significativos.

Em um país com desigualdades tão profundas, entender essas nuances é essencial para criar políticas públicas mais justas — e para repensar as ideias pré-concebidas sobre quem realmente é rico ou pobre. Afinal, no Brasil, a realidade social pode mudar drasticamente de uma cidade para outra — e até mesmo de um bairro para o outro.

[Fonte: Isto é – Dinheiro]

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