Pular para o conteúdo
Ciência

O que um estudo gigante descobriu sobre vegetarianos e câncer

Uma análise gigantesca sobre hábitos alimentares reacende o debate sobre o papel da dieta na prevenção do câncer — mas alguns resultados surpreendem até especialistas.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

O que colocamos no prato pode influenciar muito mais do que o peso ou o colesterol. Um novo estudo de grande escala volta a colocar a alimentação no centro da discussão sobre prevenção do câncer. Os dados sugerem vantagens importantes para quem evita carne, mas também trazem alertas que impedem conclusões simplistas — e é justamente aí que a história fica mais interessante.

O que o grande estudo descobriu

O que um estudo gigante descobriu sobre vegetarianos e câncer
© Pexels

Uma das maiores análises já realizadas sobre dieta e câncer encontrou uma associação relevante entre o padrão alimentar vegetariano e menor incidência de vários tumores. O trabalho, publicado no British Journal of Cancer, acompanhou aproximadamente 1,8 milhão de pessoas ao longo de uma média de 16 anos.

De acordo com os resultados, indivíduos que seguem uma dieta vegetariana — que exclui carnes e frutos do mar, mas inclui ovos e laticínios — apresentaram taxas menores de cinco tipos de câncer quando comparados a pessoas que consomem carne regularmente.

As reduções observadas foram expressivas em alguns casos:

  • Câncer de pâncreas: -21%
  • Câncer de próstata: -12%
  • Câncer de mama: -9%
  • Câncer de rim: -28%
  • Mieloma múltiplo: -31%

Esses tipos de tumor, juntos, representaram uma parcela significativa das mortes por câncer no Brasil em 2021, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer. O achado reforça uma tendência já observada em pesquisas anteriores, mas ainda longe de ser considerada definitiva.

Nem todos os resultados foram positivos

Apesar do panorama geral favorável, o estudo trouxe pontos que exigem cautela. Entre vegetarianos, a incidência de carcinoma escamoso do esôfago foi quase o dobro em relação aos carnívoros.

Já entre veganos — grupo que exclui qualquer produto de origem animal — apareceu outro sinal de alerta: a incidência de câncer colorretal foi cerca de 40% maior do que entre consumidores de carne.

Os próprios autores destacaram, porém, que o número absoluto de casos nesses grupos foi pequeno. Isso significa que, embora estatisticamente relevante, o dado precisa ser interpretado com cuidado e investigado em estudos futuros.

Outro ponto importante: trata-se de um estudo observacional. Em outras palavras, ele identifica associações, mas não prova que a dieta vegetariana seja a causa direta da redução (ou aumento) do risco de câncer.

Por que a alimentação baseada em plantas pode ajudar

Mesmo sem estabelecer causalidade, os pesquisadores apontam possíveis explicações biológicas para os resultados. Segundo o epidemiologista Tim Key, da Universidade de Oxford, dietas baseadas em vegetais tendem a aumentar o consumo de fibras, fitoquímicos e antioxidantes — compostos associados à proteção celular.

Ao mesmo tempo, esse padrão alimentar reduz a exposição a substâncias potencialmente cancerígenas presentes sobretudo em carnes processadas.

Especialistas independentes reforçam essa linha de raciocínio. O oncologista Roberto Odebrecht Rocha observa que diversos estudos já relacionaram dietas ricas em açúcar, gorduras saturadas, gorduras trans e ultraprocessados ao aumento do risco de câncer.

Por isso, a recomendação mais consistente continua sendo a adoção de uma alimentação rica em alimentos naturais, como:

  • Grãos integrais
  • Frutas
  • Vegetais
  • Leguminosas

A Organização Mundial da Saúde também já classificou carnes processadas — como salsicha, linguiça, presunto e bacon — como fatores que aumentam o risco de alguns tipos de câncer. O consumo excessivo de carne vermelha, por sua vez, é considerado um possível fator cancerígeno.

O papel dos micronutrientes e as dúvidas que permanecem

Uma das hipóteses levantadas para explicar os resultados inesperados envolve possíveis deficiências nutricionais. A pesquisadora Aurora Pérez-Cornago sugere que níveis mais baixos de vitaminas do complexo B e minerais como zinco podem influenciar o aumento de certos tumores em dietas muito restritivas.

No Reino Unido, por exemplo, veganos consomem em média 590 mg de cálcio por dia — abaixo dos 700 mg recomendados. Ainda assim, a própria autora ressalta que mais estudos são necessários para entender o que realmente está por trás dessas diferenças.

O trabalho também analisou padrões intermediários de alimentação, como pessoas que consomem peixe mas não carne vermelha ou que ingerem apenas aves. Nesses grupos, também houve redução — embora menor — no risco de câncer de cólon, mama, rim e próstata em comparação aos carnívoros.

Mesmo com a dimensão da pesquisa, especialistas pedem prudência. O epidemiologista Dagfinn Aune, do Imperial College London, destaca que o estudo pode não ter poder estatístico suficiente para detectar associações claras para todos os tipos de câncer.

Ele chama atenção para um ponto curioso: não houve redução no risco de câncer colorretal entre vegetarianos — algo que contraria muitos estudos anteriores, que indicavam queda entre 10% e 40%.

O recado final dos pesquisadores é claro: padrões alimentares baseados em plantas podem trazer benefícios, mas precisam ser bem planejados e acompanhados por profissionais de saúde para evitar deficiências nutricionais.

[Fonte: Correio Braziliense]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados