Marte já foi um mundo muito diferente do deserto gelado que vemos hoje. Evidências acumuladas ao longo das últimas décadas indicam que o planeta possuía rios, lagos e possivelmente até oceanos bilhões de anos atrás. O grande mistério é entender para onde toda essa água foi. Agora, novas observações feitas pelo rover Curiosity, da NASA, revelaram formações geológicas incomuns que podem ajudar a esclarecer essa história.
Uma paisagem marciana que lembra uma teia de aranha

Do espaço, imagens de alta resolução já haviam mostrado um padrão curioso na superfície de Marte: redes de cristas rochosas que formam estruturas semelhantes a uma teia de aranha gigante.
Essas formações são compostas por pequenas elevações de rocha que podem atingir entre um e dois metros de altura. Entre elas existem depressões preenchidas por areia, criando um relevo irregular que lembra uma rede espalhada pelo terreno.
O rover Curiosity, que explora a cratera Gale desde 2012, conseguiu se aproximar dessas estruturas e registrar imagens detalhadas da região. As novas observações permitem analisar com mais precisão como essas formações foram criadas.
Segundo os cientistas da NASA, essas cristas podem ser vestígios de um antigo sistema de circulação de água subterrânea.
Como a água pode ter esculpido essas estruturas
A hipótese mais aceita é que, no passado distante de Marte, água líquida circulava através de fissuras e pequenos espaços nas rochas do subsolo.
Com o tempo, minerais dissolvidos nessa água teriam se depositado nas fraturas da rocha. Esse processo fortaleceu essas regiões específicas, tornando-as mais resistentes à erosão do que o material ao redor.
Quando o vento e outros processos erosivos começaram a desgastar o terreno ao longo de milhões ou bilhões de anos, a rocha mais frágil foi removida primeiro.
As áreas mineralizadas permaneceram, formando as cristas que hoje aparecem como uma rede de linhas elevadas na paisagem marciana.
Esse tipo de formação geológica já foi observado também na Terra, em regiões onde fluidos subterrâneos circulam por fraturas rochosas.
Curiosity ajuda a investigar o terreno de perto

Inicialmente, os cientistas identificaram essas formações apenas por meio de imagens obtidas por sondas em órbita de Marte. No entanto, observar o terreno diretamente com o Curiosity permite analisar melhor sua estrutura e composição.
O rover pode estudar as rochas, fotografar detalhes microscópicos e coletar dados sobre a mineralogia da região.
Essas informações ajudam os pesquisadores a confirmar se as cristas realmente se formaram por processos relacionados à água.
Ashley Stroupe, engenheira do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e uma das responsáveis pela missão Curiosity, descreveu o terreno como uma espécie de “estrada natural” que o rover pode percorrer.
Segundo ela, algumas áreas são relativamente fáceis de atravessar, enquanto outras exigem mais cuidado devido às depressões arenosas entre as cristas.
Nessas regiões, os operadores precisam garantir que as rodas do rover não escorreguem ou fiquem presas na areia.
Novas pistas sobre o passado de Marte
Essas estruturas reforçam a ideia de que Marte já teve um sistema hidrológico muito mais ativo do que o atual.
Hoje, a água no planeta existe principalmente em forma de gelo nas regiões polares ou como vapor na atmosfera extremamente rarefeita. No entanto, inúmeras evidências indicam que, bilhões de anos atrás, o planeta tinha água líquida fluindo pela superfície.
A presença dessas formações em forma de teia pode indicar que a água não estava apenas em rios e lagos, mas também circulava no subsolo.
Isso amplia a compreensão de como o ambiente marciano evoluiu ao longo do tempo.
Um quebra-cabeça que ainda está longe de ser resolvido

Apesar das novas pistas, ainda não se sabe exatamente por que Marte perdeu grande parte de sua água.
Uma das hipóteses mais aceitas é que o planeta perdeu gradualmente sua atmosfera ao longo de bilhões de anos. Sem uma atmosfera densa para manter o calor e a pressão adequados, a água líquida deixou de ser estável na superfície.
Outra possibilidade envolve mudanças no campo magnético do planeta, que teriam permitido que o vento solar removesse lentamente parte da atmosfera marciana.
As estruturas estudadas pelo Curiosity são mais uma peça nesse quebra-cabeça.
Cada nova descoberta ajuda os cientistas a reconstruir como Marte passou de um mundo potencialmente habitável para o ambiente árido e frio que observamos hoje.
[ Fonte: Marca ]