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Tecnologia

O salto científico que ameaça aposentar a fibra óptica tradicional

Pesquisadores apresentaram um novo tipo de fibra que pode multiplicar em até mil vezes a capacidade de transmissão em relação às atuais. Além de reduzir custos e perdas de sinal, a tecnologia abre caminho para a comunicação quântica e pode transformar a forma como o mundo se conecta.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Durante décadas, a fibra óptica foi considerada insubstituível como base das telecomunicações globais. Mas esse reinado pode estar chegando ao fim. Cientistas da Universidade de Southampton, no Reino Unido, desenvolveram fibras “ocas”, feitas com canais cheios de ar em vez do núcleo sólido de vidro. Essa mudança aparentemente simples representa um salto gigantesco: mais velocidade, menos perdas e novas possibilidades para a próxima geração da internet.

Como funcionam as fibras ocas

Nas fibras ópticas convencionais, cerca de metade da intensidade da luz se perde a cada 15 a 20 quilômetros, obrigando à instalação de repetidores caros e volumosos. Já nas fibras ocas, essa distância aumenta para até 33 quilômetros, reduzindo a necessidade de equipamentos intermediários e barateando as redes.

Mas o que mais impressiona é a potência: esses canais conseguem transportar até mil vezes mais energia que as fibras atuais, além de suportar diferentes comprimentos de onda, inclusive pulsos de um único fóton. Isso é fundamental para as futuras redes quânticas, que exigirão transmissão segura e ultrarrápida.

Outra vantagem está na própria natureza da luz: no ar, ela viaja quase 45% mais rápido do que no vidro. Isso faz das fibras ocas verdadeiras “autoestradas” digitais, capazes de entregar maior velocidade e eficiência.

Uma década de pesquisa e aperfeiçoamento

Embora a ideia de fibras ocas não seja nova, até agora sua produção em larga escala era inviável devido ao alto custo e à complexidade técnica. O grupo liderado por Francesco Poletti passou mais de dez anos aperfeiçoando o design e o processo de fabricação.

A solução foi desenvolver uma estrutura precisa, formada por vários cilindros pequenos dentro de um cilindro maior, capazes de confinar a luz sem perdas. Em vez de vidro sólido, a equipe utiliza uma pré-forma oca, que durante o estiramento é mantida sob pressão para preservar os canais internos.

Essa inovação tornou a produção mais estável e viável, abrindo caminho para a comercialização em escala.

Da pesquisa ao mercado global

O projeto já deixou o laboratório. A startup Lumenisity, criada em Southampton, assumiu a missão de produzir essas fibras em larga escala. Em 2022, a empresa foi adquirida pela Microsoft, interessada em aplicar a tecnologia para acelerar seus centros de dados e preparar a chegada da computação quântica.

Segundo Poletti, o impacto econômico será enorme: se for possível eliminar um de cada dois ou três edifícios de repetição nas redes, os custos operacionais cairão drasticamente.

Preparando a internet quântica

Além de baratear e acelerar as conexões atuais, o avanço tem implicações estratégicas. A compatibilidade com tecnologias quânticas é vista como um diferencial decisivo: essas redes precisam transportar fótons individuais com baixíssima perda, algo que antes era financeiramente proibitivo.

Para Tracy Northup, física experimental da Universidade de Innsbruck, a expectativa é que a produção em escala reduza preços e permita a disseminação global dessa infraestrutura.

Se as previsões se confirmarem, as fibras ocas poderão substituir progressivamente as de vidro, oferecendo uma internet mais rápida, potente e preparada para a era digital quântica.

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