O consumo de estimulantes sexuais não regulamentados tem se expandido pela África Ocidental, atravessando fronteiras e chegando a outros continentes. Apresentados como alternativas naturais para aumentar o desempenho masculino, esses produtos vêm causando sérios danos à saúde, mesmo após proibições governamentais. A crença em fórmulas milagrosas e a pressão cultural pela virilidade mantêm um mercado ativo e perigoso.
Um mercado em expansão sem controle

Na Costa do Marfim, homens de todas as idades recorrem a estimulantes sexuais produzidos em fábricas improvisadas e vendidos nas ruas por valores acessíveis. Para muitos jovens, essas drogas são vistas como uma forma de impressionar suas parceiras ou prolongar o desempenho íntimo. No entanto, os efeitos colaterais incluem dores de cabeça intensas, palpitações cardíacas, salivação descontrolada e até ereções prolongadas que podem levar à necrose.
Mesmo diante de proibições e apreensões, o comércio continua crescendo. Produtos como o Attoté, bebida rosa de sabor amargo, e outros afrodisíacos artesanais invadiram mercados locais e também estão disponíveis em plataformas internacionais, muitas vezes vendidos como “naturais”, embora contenham altos níveis de sildenafil, substância presente no Viagra.
A guerra contra as fórmulas clandestinas
As autoridades da Costa do Marfim classificam o avanço desses produtos como uma verdadeira guerra. Estima-se que metade das drogas em circulação na África Ocidental não tenha regulamentação. Segundo a ONU, mais de meio milhão de pessoas morrem por ano na África Subsaariana em decorrência de medicamentos inseguros. Os estimulantes sexuais estão entre os mais denunciados.
Apesar da suspensão oficial, a demanda continua. Em cidades como Korhogo, homens chegam em motos ou SUVs para comprar garrafas do Attoté em pontos de venda improvisados. Poucos demonstram preocupação com os riscos, preferindo acreditar em promessas de potência e resistência.
O poder da tradição e da crença popular
O sucesso desses estimulantes não se explica apenas pela propaganda. A medicina herbal tem forte presença cultural na África Ocidental, onde muitos acreditam no poder curativo das plantas. Empreendedores como Djakalia Ouattara, criador do Attoté, afirmam que suas fórmulas vêm de receitas ancestrais transmitidas por gerações.
Ouattara, conhecido como “Dr. Attoté”, construiu fama ao afirmar que herdou uma receita sagrada do avô. Para seus seguidores, o produto não é apenas um afrodisíaco, mas uma solução para infertilidade e outras doenças. No entanto, testes laboratoriais revelaram concentrações de sildenafil oito vezes maiores que a dose recomendada, expondo consumidores a riscos severos.
Da proibição ao renascimento com outro nome
Mesmo após a proibição oficial, a produção não cessou. O Attoté ressurgiu no mercado sob o nome Fêrêlaha, que significa “Tire a vergonha de mim”. A mudança de rótulo não trouxe alterações na fórmula, apenas reforçou a estratégia de manter vivo um negócio altamente lucrativo.
As garrafas continuam a circular em países vizinhos como Senegal e Gana, e também chegaram à Europa e aos Estados Unidos, onde podem custar até dez vezes mais que no mercado local. O volume de produção é imenso: milhares de garrafas saem diariamente de fábricas improvisadas.
Consequências médicas e silêncio social
Nos hospitais da Costa do Marfim, médicos relatam aumento de casos de pacientes com priapismo — ereções dolorosas e prolongadas que, em situações graves, exigem cirurgia. Os atendimentos crescem especialmente em datas festivas, quando a procura por estimulantes dispara.
Apesar disso, o tema ainda é cercado por vergonha. Muitos pacientes evitam buscar ajuda imediata por constrangimento, o que agrava os riscos. Profissionais de saúde alertam que a maioria dos homens atendidos tem entre 30 e 40 anos, faixa etária que, em tese, não precisaria recorrer a tais substâncias.
Entre crença, lucro e perigo
A expansão desses estimulantes ilustra como crenças populares, pressão social e oportunidades de lucro formam uma combinação explosiva. A promessa de potência continua seduzindo, enquanto as autoridades tentam conter um comércio que se reinventa a cada proibição.
O dilema permanece: de um lado, consumidores dispostos a arriscar a saúde em busca de virilidade; de outro, um mercado que se apoia em tradições e narrativas místicas para manter o negócio ativo. No meio disso, multiplicam-se histórias de intoxicações, emergências médicas e vidas colocadas em risco por uma falsa promessa de poder masculino.
[Fonte: O Globo]