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Ciência

O sistema imunológico não envelhece aos poucos: estudo encontra dois momentos de mudança acelerada

Uma análise de 3,8 milhões de células mostra picos de envelhecimento imunológico por volta dos 40 e depois dos 60 anos, com diferenças importantes entre homens e mulheres.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Envelhecer não parece ser um processo perfeitamente gradual — pelo menos quando observamos nosso sistema imunológico. Um amplo estudo realizado por pesquisadores da Duke-NUS Medical School, em Singapura, identificou dois períodos em que mudanças nas células de defesa se aceleram: por volta dos 40 anos e novamente depois dos 60. Os resultados também revelam que homens e mulheres seguem trajetórias imunológicas diferentes ao longo da vida.

O sistema imunológico tem dois grandes momentos de mudança

Cientistas Descobrem Como “treinar” O Sistema Imunológico Para Atacar O Câncer
© Imagem gerada por inteligência artificial – Gizmodo BR

O trabalho, publicado na revista científica Nature Communications, analisou dados de 3,8 milhões de células imunológicas de 1.828 pessoas saudáveis, com idades entre 19 e 97 anos.

A amostra também foi multiétnica, com cerca de 35% dos participantes de origem asiática. Os pesquisadores analisaram a atividade genética das células para descobrir como diferentes componentes do sistema imunológico se modificam conforme envelhecemos.

Os resultados apontaram para um padrão que foge da ideia tradicional de um declínio lento e constante.

O estudo publicado na Nature Communications identificou um primeiro pico importante de alterações na expressão genética por volta dos 40 anos. Um segundo período de mudanças acentuadas apareceu depois dos 60.

Esses picos continuaram aparecendo mesmo quando os pesquisadores aplicaram diferentes métodos estatísticos aos dados, reforçando a possibilidade de que representem sinais biológicos reais do envelhecimento.

Isso não significa, porém, que uma pessoa complete 40 ou 60 anos e seu sistema imunológico subitamente envelheça. Os resultados descrevem tendências observadas em grandes grupos e mostram períodos em que determinadas alterações moleculares parecem se tornar mais intensas.

Os linfócitos T estão no centro dessas mudanças

Entre as células analisadas, os linfócitos T tiveram papel especialmente importante.

Essas células são fundamentais para a resposta imunológica e ajudam o organismo a reconhecer e combater agentes infecciosos. Mas o estudo descobriu que diferentes tipos de linfócitos T predominam em cada uma das duas fases de envelhecimento acelerado.

Por volta dos 40 anos, as maiores alterações apareceram principalmente nos linfócitos T CD4, que coordenam diferentes componentes da resposta imunológica.

Depois dos 60, os linfócitos T CD8 ganharam maior protagonismo. Essas células participam diretamente da destruição de células infectadas ou anormais.

Segundo o comunicado oficial da Duke-NUS Medical School, compreender por que essas mudanças acontecem de maneira não linear pode ajudar a explicar por que adultos mais velhos se tornam mais suscetíveis a infecções e condições inflamatórias.

Homens e mulheres não envelhecem imunologicamente da mesma maneira

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© Pexels

Outro resultado importante foi a diferença entre os sexos.

As mulheres apresentaram, por exemplo, ativação mais persistente de determinados linfócitos T CD8 e sinais de envelhecimento mais tardios em células CD4, células NK e linfócitos B.

Nos homens, os pesquisadores encontraram alterações mais precoces relacionadas ao metabolismo dos linfócitos T CD4.

Essas diferenças podem ajudar a investigar um paradoxo conhecido da medicina: mulheres geralmente vivem mais que homens, mas apresentam maior prevalência de diversas doenças autoimunes e outras condições relacionadas ao funcionamento do sistema imunológico.

Os autores ressaltam, entretanto, que o estudo não demonstra que essas alterações celulares sejam diretamente responsáveis pelo desenvolvimento dessas doenças. O trabalho oferece um mapa mais detalhado do envelhecimento imunológico que poderá orientar novas pesquisas.

A idade biológica pode ser diferente daquela no documento

A enorme quantidade de informações coletadas também permitiu que os pesquisadores desenvolvessem modelos de inteligência artificial capazes de estimar a chamada idade biológica.

Diferentemente da idade cronológica, que simplesmente conta quantos anos uma pessoa viveu, a idade biológica tenta estimar o estado de envelhecimento do organismo a partir de características moleculares e celulares.

Um resultado chamou a atenção: modelos separados para homens e mulheres tiveram desempenho melhor na previsão da idade biológica do que um único modelo aplicado aos dois sexos.

Para os cientistas, isso reforça a ideia de que tratamentos e estratégias destinados a preservar a saúde durante o envelhecimento talvez precisem considerar não apenas a idade da pessoa, mas também diferenças biológicas entre homens e mulheres.

Ainda é cedo para transformar os dois picos encontrados no estudo em recomendações médicas específicas. Mas a pesquisa ajuda a desmontar uma visão simplificada do envelhecimento: nossas defesas não parecem simplesmente enfraquecer um pouco a cada ano. Existem fases da vida em que mudanças importantes podem acontecer mais rapidamente — e entender essas janelas pode ser essencial para descobrir como manter o sistema imunológico saudável por mais tempo.

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