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O “soro da juventude” que está matando milhões de burros na China

Um produto da medicina tradicional chinesa, vendido como elixir da longevidade, está provocando uma crise global. A demanda crescente pelo ejiao, um gel feito com pele de burros, alimenta um comércio cruel que ameaça comunidades inteiras na África e pode levar à extinção desses animais.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O ejiao é um produto milenar usado na medicina tradicional chinesa há mais de dois mil anos. É feito a partir da fervura da pele de burros até se transformar em uma substância gelatinosa. Originalmente, era um artigo de luxo usado por imperadores e aristocratas, prometendo “fortalecer o sangue” e “rejuvenescer o corpo”.

Mas, nos últimos anos, o ejiao se tornou febre entre a nova classe média chinesa. Ele é vendido em forma de gel, comprimidos ou até misturado a bebidas e doces — e é conhecido popularmente como o “soro da juventude”. Mesmo sem comprovação científica, muitos acreditam que o produto combate anemia, insônia e envelhecimento precoce.

De acordo com a organização internacional de proteção animal Brooke, o mercado do ejiao cresceu de US$ 3,2 bilhões em 2013 para US$ 7,8 bilhões em 2021, movimentando uma cadeia bilionária. Só que, por trás desse sucesso, existe uma catástrofe silenciosa.

A matança por trás da beleza

Mais de seis milhões de burros são abatidos por ano para abastecer as fábricas chinesas. Como a China já exterminou boa parte de seus rebanhos, a indústria passou a buscar peles na África, onde os animais ainda são essenciais para a vida rural.

Mesmo após a proibição da União Africana em 2024, o contrabando continua a todo vapor. Burros são roubados de famílias pobres, forçados a caminhar dias sem alimento e abatidos brutalmente em matadouros clandestinos. As peles são então enviadas à China, onde o ejiao é legalmente vendido — inclusive em plataformas como Amazon e Etsy.

Em um documentário recente, From Skin to Skincare (“Da Pele ao Cuidado com a Pele”), o veterinário britânico Scott Miller descreveu o que viu em visitas a regiões afetadas:

“Pisar sobre crânios de burros mortos a pauladas é algo que nunca esquecerei.”

Segundo ele, se o comércio não for interrompido, a população de burros africanos poderá desaparecer nas próximas décadas.

Um impacto que vai além da crueldade animal

O problema não é apenas ecológico — é também social e humanitário. Em várias regiões da África, os burros são vitais para o transporte de água, alimentos e mercadorias. Sem eles, a carga de trabalho passa para mulheres e crianças, que abandonam a escola ou o trabalho para suprir a ausência dos animais.

“Estamos diante de uma tragédia animal e humana”, resume Chris Wainwright, diretor da Brooke. Ele afirma que o comércio do ejiao ameaça não só a subsistência rural, mas também a segurança sanitária do planeta.

O transporte ilegal de animais vivos entre fronteiras aumenta o risco de doenças zoonóticas, como a influenza equina e a encefalose viral. Especialistas alertam que o tráfico de peles de burros pode se tornar uma “bomba biológica” de alcance global.

Números que assustam

A crise se reflete nos dados. Entre 2011 e 2021, a população de burros em Botsuana caiu 70%. A Brooke estima que, se nada for feito, o número total de burros africanos cairá de 27 milhões para apenas 14 milhões em 15 anos.

Além disso, espécies selvagens — como o burro-africano-selvagem, já classificado como “criticamente ameaçado” — estão à beira da extinção.

Enquanto isso, o produto continua valorizado. Um pacote de 250 gramas de ejiao pode custar mais de mil yuans (cerca de R$ 700). Fabricantes adicionam nozes e ervas para vender versões “premium” do gel, que é dissolvido em água, álcool ou usado em cosméticos de luxo.

A pressão por uma proibição global

Entidades de proteção animal defendem que o combate ao ejiao deve ser coordenado globalmente. Para Wainwright, “o tráfico de peles de burro é uma das maiores ameaças ao bem-estar animal e à subsistência humana de nossa era”.

O pedido é por uma proibição internacional total, capaz de interromper o ciclo de contrabando e dar tempo para que as populações de burros se recuperem.

Enquanto isso não acontece, milhões de animais continuam sendo abatidos em nome de uma promessa de juventude eterna — uma promessa sem base científica, mas com consequências muito reais.

Reflexão final

O ejiao é o retrato cruel de como o desejo humano por beleza e longevidade pode gerar destruição. A crença em um “soro da juventude” está custando a vida de milhões de burros e o sustento de famílias inteiras. Talvez o verdadeiro rejuvenescimento comece quando a humanidade aprender a envelhecer com consciência.

[Fonte: R7]

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