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O “trem do amor”: a viagem que desafia a guerra na Ucrânia

Em meio a bombardeios, atrasos e incertezas, um trem noturno virou símbolo de resistência emocional na Ucrânia. Apelidado de “trem do amor”, ele leva mulheres até cidades próximas à linha de frente para reencontrar maridos e namorados que lutam contra a Rússia. A jornada é longa, perigosa — e, para muitas, a única forma de manter o vínculo vivo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A história de Sasha, de 22 anos, ajuda a entender o peso desse ritual. Ela embarca em Kiev com destino ao leste do país para ver o marido, Dmytro, militar de carreira. O reencontro é aguardado por semanas, mas dura pouco. Ainda assim, ela vai. “A ida é cansativa, mas cheia de esperança. A volta é sempre mais difícil”, contou à BBC News.

Uma rota interrompida pela guerra

O “trem do amor”: a viagem que desafia a guerra na Ucrânia
© https://x.com/ukraine_world/

Desde 5 de novembro de 2025, a Ferrovia Ucraniana suspendeu serviços regulares em Donetsk após ataques à infraestrutura. O trem já não para em Kramatorsk; agora, o trajeto termina em uma cidade menor, a duas horas de ônibus. Na transferência, “tudo pode acontecer”, diz Sasha. Mesmo assim, os trens seguirem operando “dá esperança”.

O trem parte de Kiev em alta velocidade, mas perde ritmo ao cruzar regiões atingidas por bombardeios. Desvios são comuns, e ninguém sabe ao certo quando chegará. Em dias piores, o ônibus não aparece; em outros, só um táxi improvisa a continuação por estradas esburacadas, sob neblina e risco constante.

Casamento, planos e limites do possível

Sasha se casou em agosto de 2025. Dmytro passou sete dos seus 26 anos nas Forças Armadas; o entorno familiar dela também é militar. A ideia de se mudar para Kramatorsk foi discutida várias vezes — e descartada. A cidade segue barulhenta, sob ataques frequentes. Os encontros acontecem em áreas “relativamente mais seguras”. “Quando ele dorme ao meu lado, não tenho medo de nada”, diz ela.

Essa é a lógica que move o trem do amor: aceitar o risco para preservar o afeto. O calendário do casal é moldado por folgas raras e janelas imprevisíveis.

Plataforma, neblina e reencontros breves

Em Barvinkove, a plataforma recebe desembarques cautelosos. A neblina traz um alívio estranho: menos drones no céu, cochicham as avós. A multidão segue em silêncio, muitos de uniforme. Abraços surgem no escuro.

Polina, 24, viaja pela primeira vez. Conheceu Andriy há quatro meses, num ônibus. Ele ia se alistar; ela voltava do litoral. “Relacionamento à distância é difícil. Quando ele não responde, eu me preocupo. Mas pode ser só o banho”, diz. O pouco tempo juntos exige reaprendizado do toque, da presença. Mesmo assim, ela veio “nem que fosse para um café”.

Amor e evacuação no mesmo vagão

Os trens que levam casais às cidades da linha de frente também transportam famílias em evacuação. A linha de frente fica a cerca de 20 km de Kramatorsk e Sloviansk; ambas sofrem bombardeios e ataques com drones. Diariamente, cerca de 200 pessoas chegam a centros de evacuação na fronteira entre Kharkiv e Donetsk, buscando segurança. Alguns têm plano; outros aguardam um trem atrasado, quando ele vier.

O perigo não dá trégua. Ao voltar para Kiev, Polina ouviu explosões na plataforma. Naquela noite, a capital enfrentou um dos alertas aéreos mais longos do ano, com feridos e mortos confirmados.

O que mantém essas viagens de pé

Para quem embarca no trem do amor, o combustível é simples: vida cotidiana ainda possível, comunicação funcionando, transporte existindo. “Já começo a me preparar para o próximo reencontro”, diz Sasha. “Não há tempo para lágrimas.”

Entre trilhos danificados e abraços apressados, essas viagens não prometem finais felizes. Prometem presença. E, em guerra, isso já é muito.

[Fonte: Correio Braziliense]

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