O fim da vida costuma ser cercado de silêncio, medo e desconhecimento. Muitos não sabem reconhecer os sinais de que a morte está próxima — nem mesmo profissionais da saúde, que às vezes recorrem a intervenções desnecessárias. Entender o processo da chamada “fase ativa da morte” pode ajudar a lidar com esse momento de forma mais serena e significativa, tanto para quem parte quanto para quem permanece.
A fase ativa da morte
Esse processo ocorre nos últimos dias ou horas de vida e está frequentemente ligado a doenças de longa duração, como câncer ou demência. Nessa etapa, o corpo perde gradualmente a capacidade de manter suas funções vitais. Sonolência, falta de apetite e necessidade reduzida de líquidos são alguns dos sinais mais comuns. O sistema digestivo desacelera, a circulação diminui e a pele pode ficar fria, pálida ou azulada, especialmente nas extremidades.
O corpo que se despede
A médica Ana Claudia Quintana Arantes compara esse processo aos quatro elementos da natureza: terra, água, fogo e ar. A “terra” representa o corpo físico, que começa a enfraquecer, causando fadiga intensa e dificuldade de movimentos. Mesmo magra, a pessoa pode parecer pesada, pois o organismo está se desligando. É nesse momento que familiares são incentivados a conversar e tocar suavemente o ente querido, já que audição e tato permanecem ativos até os instantes finais.
Quando a água se vai
Com a progressão, o corpo resseca. Boca, olhos e pele ficam secos, e a saliva escasseia. Embora muitos acreditem que o soro intravenoso seja necessário, especialistas afirmam que medidas simples, como hidratar os lábios, umedecer a boca e usar colírios, trazem mais conforto. A dor pode aumentar nessa fase, mas há recursos, como morfina, para aliviar sintomas e evitar sofrimento desnecessário.

O fogo da despedida
Curiosamente, há um momento em que os sintomas parecem melhorar: a chamada “melhora da morte”. A pessoa volta a interagir, demonstra ânimo e pode até pedir alimentos que gosta. Esse período breve permite encontros, reconciliações e despedidas significativas. Especialistas alertam, porém, que não se trata de uma recuperação real, mas de um instante precioso que deve ser vivido com intensidade.
O último sopro de ar
Na etapa final, a respiração muda: fica irregular, com pausas longas e ruídos fortes devido ao acúmulo de secreções na garganta. Embora possa ser angustiante para familiares, isso não significa sofrimento para quem está partindo. O último ato da vida é uma expiração — devolver o ar recebido no nascimento. Após isso, coração e cérebro cessam lentamente suas funções. Para especialistas, é essencial compreender a morte não como o oposto da vida, mas como parte inseparável dela.
Fonte: BBC