A história da formação dos planetas sempre esteve ligada à presença de poeira cósmica rica em elementos pesados. Mas no universo primitivo, quando quase tudo era hidrogênio e hélio, esse cenário parecia improvável. Agora, novas observações do Telescópio Espacial James Webb mostram que as primeiras estrelas foram muito mais criativas do que se imaginava — e conseguiram fabricar os ingredientes dos planetas mesmo em ambientes quimicamente hostis.
Uma galáxia que imita o universo logo após o Big Bang

O foco do estudo é a galáxia anã Sextans A, localizada a cerca de quatro milhões de anos-luz da Terra. Ela contém apenas entre 3% e 7% da quantidade de elementos pesados presente no Sol, o que a torna um excelente análogo das primeiras galáxias formadas após o Big Bang.
Por ter pouca gravidade, Sextans A não consegue reter facilmente elementos como ferro e oxigênio. Por isso, durante décadas, astrônomos acreditaram que suas estrelas praticamente não seriam capazes de produzir poeira interestelar — um componente crucial para a formação de planetas, luas e até moléculas complexas.
O Webb desmonta uma ideia antiga
As novas observações, apresentadas por pesquisadoras do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial, mudaram esse cenário. Utilizando o espectrômetro infravermelho MIRI, o James Webb analisou estrelas envelhecidas em Sextans A e encontrou algo inesperado: grãos de ferro metálico puro e carbeto de silício em um ambiente extremamente pobre em metais.
“Sextans A nos oferece um modelo realista de como eram as primeiras galáxias cheias de poeira”, explicou Elizabeth Tarantino, pesquisadora do STScI, durante a apresentação dos resultados em uma conferência científica.
Estrelas que produzem poeira sem os ingredientes clássicos

Um dos estudos, publicado no The Astrophysical Journal, analisou estrelas em estágio avançado de evolução, conhecidas como estrelas da Rama Assintótica Gigante (AGB). Em galáxias como a Via Láctea, estrelas desse tipo costumam produzir poeira rica em silicatos.
Em Sextans A, porém, isso parecia improvável. “Com uma metalicidade tão baixa, esperávamos estrelas praticamente livres de poeira”, afirmou Martha Boyer, astrônoma associada do STScI e autora principal do estudo. O Webb, no entanto, revelou uma estrela que fabrica grãos compostos quase inteiramente de ferro — algo nunca observado antes em estrelas semelhantes.
Boyer comparou o ambiente químico de Sextans A a uma “cozinha cósmica sem farinha, açúcar ou manteiga”. Ainda assim, as estrelas encontraram uma “receita alternativa” para produzir poeira, mostrando que a falta de silício e magnésio não impediu a formação de sólidos.
Um tipo de poeira diferente da atual
Essa poeira primitiva provavelmente era muito distinta daquela observada hoje. Grãos de ferro absorvem luz de forma eficiente, mas deixam poucas assinaturas espectrais claras. Segundo Boyer, isso pode explicar por que o Webb detecta grandes quantidades de poeira em galáxias muito distantes, mesmo quando faltam os sinais clássicos de silicatos.
Em outras palavras, parte da poeira do universo jovem pode estar “escondida” à vista, desempenhando um papel crucial na evolução das primeiras galáxias.
Moléculas complexas surgindo cedo demais
Um segundo estudo, publicado no arXiv, trouxe outra surpresa: a detecção de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP) — moléculas orgânicas complexas — em pequenas regiões de gás denso dentro de Sextans A. É a primeira vez que essas moléculas são observadas em uma galáxia com metalicidade tão baixa.
“Os dados mostram que os HAP podem se formar e sobreviver mesmo nos ambientes mais pobres em metais, desde que existam bolsões protegidos de gás denso”, explicou Tarantino. A descoberta resolve um antigo enigma sobre a aparente ausência dessas moléculas em galáxias primitivas.
O que isso muda na história dos planetas
Os resultados indicam que o universo primitivo possuía muito mais caminhos para criar poeira do que se pensava. Cada novo achado em Sextans A reforça a ideia de que as primeiras estrelas foram extremamente engenhosas.
Para os astrônomos, fica cada vez mais claro que os blocos fundamentais dos planetas começaram a se formar muito antes do surgimento de galáxias como a Via Láctea. Como resumiu Boyer, as estrelas encontraram maneiras de construir os ingredientes dos planetas quando o universo ainda estava aprendendo a criar complexidade.
[ Fonte: Infobae ]