O calor excessivo deixou de ser um fenômeno pontual e passou a ser parte da nova realidade climática do Brasil. Um estudo recente da Universidade Federal de Santa Catarina revela que os bloqueios atmosféricos, responsáveis por reter o ar quente e impedir a chegada de frentes frias, estão por trás da escalada nas temperaturas extremas. A previsão para os próximos anos é preocupante — e revela um país cada vez mais desigual diante do clima.
Bloqueios atmosféricos e a intensificação do calor

Segundo o estudo, esses bloqueios formam uma espécie de bolha de calor, onde o ar quente fica preso, impedindo a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas. A pesquisadora Regina Rodrigues, oceanógrafa e coautora do trabalho, explica que o fenômeno pode se intensificar dez vezes até 2071, atingindo tanto áreas continentais quanto oceânicas.
O resultado é um ambiente seco, com céu aberto e altas temperaturas prolongadas. Isso já se reflete em cidades como São Paulo, que antes do ano 2000 registrava, em média, um dia de calor extremo por verão. Entre 2015 e 2019, esse número subiu para sete dias — e no verão de 2024, foram 23 dias com temperaturas acima da média. O fenômeno tem aparecido até fora do verão, como nos chamados “veranicos” de maio, que misturam manhãs frias com tardes escaldantes.
Impactos desiguais: quem sofre mais com o calor extremo

Embora o calor afete toda a população, ele atinge de forma mais severa os brasileiros em situação de vulnerabilidade. Segundo o IBGE, mais de 16 milhões de pessoas vivem em comunidades onde a adaptação ao clima é limitada. Maria da Conceição Mendes, moradora da Zona Oeste de São Paulo, relata dificuldades para dormir com temperaturas acima dos 30 °C dentro de casa, agravadas por telhados de zinco e a ausência de ventilação adequada.
Sem acesso a ar-condicionado — disponível em menos de 20% das residências brasileiras — ela recorre a estratégias improvisadas: toalhas molhadas, bacias com água e garrafas de gelo. Apesar disso, a venda de ar-condicionado cresceu 38% em 2024, com quase 6 milhões de unidades comercializadas, refletindo a busca desesperada por alívio térmico em um país onde poucos podem pagar por ele.
Efeitos na saúde e urgência de adaptação
As ondas de calor também representam um risco crescente à saúde pública. Paulo Saldiva, patologista da USP, alerta que, nos dias mais quentes, o risco de morte por causas naturais como infarto, AVC e doenças respiratórias pode aumentar até 50%, principalmente entre idosos, crianças e pessoas com doenças pré-existentes.
Mesmo com esforços globais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, especialistas afirmam que o calor extremo veio para ficar. A saída, segundo eles, está na adaptação: criar mais áreas verdes, promover o plantio de árvores adequadas e envolver a população em soluções sustentáveis.
“O desafio é grande, mas também é uma oportunidade de criar cidades mais resilientes e humanas”, afirma Saldiva. “Precisamos agir agora para que o legado deixado às futuras gerações seja de esperança — e não de colapso.”
[Fonte: G1]