Na resposta apresentada à Justiça, a OpenAI foi além da defesa jurídica. A empresa sugeriu que as acusações da Apple seriam motivadas, ao menos em parte, pela dificuldade da companhia em manter seus profissionais e acompanhar a evolução do mercado de inteligência artificial.
OpenAI acusa Apple de tentar compensar falhas no mercado
Em um documento de 28 páginas, os advogados da OpenAI afirmaram que a Apple não deveria utilizar uma ação judicial sem base para compensar suas próprias dificuldades.
Segundo a defesa, a fabricante do iPhone enfrenta problemas para atrair e reter profissionais especializados. Além disso, teria falhado na integração da inteligência artificial aos seus produtos.
O processo da Apple envolve dois ex-funcionários, Chang Liu e Tang Tan. A companhia afirma que ambos utilizaram conhecimentos internos e informações confidenciais para ajudar a OpenAI a desenvolver sua nova divisão de hardware.
Liu teria sido contratado pela OpenAI no início deste ano. Tan, por sua vez, passou a trabalhar com a empresa no ano passado e também participou da fundação da startup de hardware io.
Ex-funcionários são acusados de compartilhar informações
A Apple sustenta que Liu e Tan tiveram acesso a projetos e conhecimentos estratégicos durante o período em que trabalhavam na companhia.
Segundo o processo, essas informações poderiam beneficiar os esforços da OpenAI para criar dispositivos próprios e competir diretamente no mercado de eletrônicos de consumo.
A OpenAI rejeitou as acusações em uma publicação oficial. Para sustentar sua versão, divulgou trechos de conversas por iMessage entre Liu e antigos colegas da Apple, além de mensagens trocadas pelos advogados das duas empresas.
O texto adotou um tom provocativo. A OpenAI lembrou que a Apple é conhecida por sua obsessão com detalhes, mas afirmou que essa atenção não estaria presente no processo apresentado à Justiça.
Conversas seriam apenas parte de atividades rotineiras
De acordo com a OpenAI, Liu apenas tentou ajudar antigos colegas que o procuraram depois de sua saída da Apple, em janeiro.
Esses profissionais teriam solicitado ajuda para encontrar informações internas que não conseguiam localizar. A defesa sustenta que o ex-funcionário não pretendia transferir segredos comerciais para sua nova empregadora.
A Apple também acusou Tang Tan de incentivar candidatos vindos da empresa a revelar informações confidenciais durante entrevistas de emprego.
Para os advogados da OpenAI, essas conversas não passaram de atividades comuns de recrutamento e desenvolvimento de produtos.
A defesa também afirma que a Apple não identificou com clareza qual segredo comercial teria sido compartilhado com Tan. Segundo a OpenAI, essa ausência enfraquece a acusação de violação da lei federal americana de proteção aos segredos comerciais.
Apple ainda tenta recuperar terreno na inteligência artificial
A Apple é frequentemente vista como uma das empresas que demoraram a reagir à explosão da inteligência artificial generativa.
Enquanto Microsoft, Google, Amazon e Meta aceleraram seus investimentos depois do lançamento do ChatGPT, no final de 2022, a fabricante do iPhone adotou uma estratégia mais cautelosa.
Para alguns analistas, essa demora representou um erro. Outros consideram que a empresa agiu com prudência diante de uma tecnologia ainda instável e cercada por dúvidas sobre custos, segurança e retorno financeiro.
A Apple não ficou completamente de fora dessa corrida. Em junho de 2024, anunciou uma parceria com a OpenAI para integrar o ChatGPT à Siri e a outros recursos de seus dispositivos.
No entanto, a relação entre as duas empresas piorou à medida que a OpenAI passou a desenvolver seus próprios produtos físicos.
Disputa por profissionais aumentou a tensão
A rivalidade se intensificou após a OpenAI adquirir a io, empresa fundada pelo ex-executivo e designer da Apple Jony Ive. Tang Tan também participou da criação da startup.
Com isso, a OpenAI deixou de ser apenas uma fornecedora de inteligência artificial e passou a representar uma possível concorrente no mercado de hardware.
A disputa por profissionais especializados é outro ponto de tensão. Startups como OpenAI e Anthropic vêm atraindo engenheiros de empresas tradicionais com salários e benefícios elevados, mesmo para os padrões do Vale do Silício.
Segundo o processo apresentado pela Apple, mais de 400 antigos funcionários da companhia já foram contratados pela OpenAI.
Agora, caberá à Justiça decidir se a ação da Apple apresenta provas suficientes de roubo de segredos comerciais ou se, como afirma a OpenAI, trata-se de uma tentativa de transformar a perda de talentos e o atraso em inteligência artificial em uma batalha judicial.