As gigantes da tecnologia estão investindo centenas de bilhões de dólares na infraestrutura necessária para sustentar a corrida da inteligência artificial. Mas existe um obstáculo que dinheiro sozinho não consegue eliminar: moradores das regiões escolhidas para receber os enormes data centers.
Nos primeiros seis meses de 2026, pelo menos 120 projetos avaliados em aproximadamente US$ 198 bilhões foram bloqueados ou sofreram atrasos nos Estados Unidos após enfrentar oposição local, segundo dados da Data Center Watch.
O movimento mostra que a infraestrutura física necessária para alimentar a expansão da IA está se tornando uma questão cada vez mais controversa no país.
US$ 68 bilhões em projetos afetados em apenas três meses
Entre abril e junho, pelo menos 45 projetos de data centers, avaliados em quase US$ 68 bilhões, foram bloqueados ou atrasados.
O número já seria expressivo isoladamente. Mas os três meses anteriores haviam sido ainda mais turbulentos.
No primeiro trimestre de 2026, pelo menos 75 projetos, avaliados em aproximadamente US$ 130 bilhões, enfrentaram interrupções relacionadas à oposição local.
Somados, os dois períodos chegam perto dos US$ 200 bilhões.
Os números vêm da Data Center Watch, iniciativa da 10a Labs que acompanha movimentos comunitários contrários à construção e expansão dessas instalações nos Estados Unidos.
Por que moradores estão rejeitando data centers?
O crescimento explosivo da inteligência artificial exige instalações cada vez maiores para armazenar servidores e executar os cálculos necessários para treinar e operar modelos.
Mas essas estruturas também podem demandar enormes quantidades de eletricidade e, dependendo de seu sistema de refrigeração, água.
É justamente aí que começam muitos dos conflitos.
Comunidades levantam preocupações sobre pressão adicional nas redes elétricas, disponibilidade de água, ruído, ocupação do solo, possíveis impactos sobre imóveis e quem deve pagar pela expansão da infraestrutura necessária.
A oposição não está concentrada em apenas uma região ou corrente política. Segundo a Data Center Watch, grupos contrários ou críticos a novos projetos já aparecem em 49 estados americanos.
Mais de 300 projetos de lei entraram na discussão
A resistência também chegou aos governos estaduais.
Somente nas primeiras seis semanas de 2026, mais de 300 projetos de lei relacionados aos data centers foram apresentados nos Estados Unidos. Propostas de moratórias estaduais apareceram em 14 estados.
Até o final da sessão legislativa de 2026, 30 legislaturas estaduais haviam apresentado leis, resoluções ou ações relacionadas à localização dos centros de dados, limitações de água e eletricidade e divisão dos custos de infraestrutura.
Governos locais também passaram a adotar suas próprias restrições, enquanto algumas cidades estudam pausas temporárias para avaliar os efeitos dessas instalações antes de aprovar novos projetos.
A corrida pela IA encontra um problema físico
O contraste é enorme.
Amazon, Microsoft, Meta e Google estão entre as empresas que destinam grandes volumes de capital à construção da infraestrutura necessária para desenvolver inteligência artificial.
Só que modelos digitais precisam de uma infraestrutura extremamente física.
Cada nova geração de IA depende de chips, servidores, sistemas de refrigeração, redes elétricas e terrenos capazes de acomodar instalações gigantescas.
Isso coloca empresas de tecnologia diretamente diante de questões que vão muito além do desempenho de seus algoritmos.
A expansão precisa competir por energia e outros recursos com residências, indústrias e diferentes atividades econômicas.
A resistência pode se tornar parte permanente da corrida pela IA
O governo federal americano tem defendido a expansão da infraestrutura de inteligência artificial como estratégica na competição tecnológica com a China.
Mas, em nível estadual e municipal, a situação é mais fragmentada.
Mesmo regiões tradicionalmente favoráveis a grandes investimentos começaram a discutir limites relacionados à capacidade de suas redes elétricas e ao custo necessário para atender novos projetos.
Isso cria um paradoxo para a indústria.
As empresas querem construir rapidamente a infraestrutura necessária para uma tecnologia que avança em ritmo acelerado. Comunidades e governos locais, porém, precisam avaliar consequências que podem durar décadas.
A inteligência artificial pode funcionar na nuvem, mas os computadores que a mantêm funcionando estão firmemente presos ao chão — e encontrar lugares dispostos a recebê-los está se tornando uma parte cada vez mais complicada da corrida pela IA.