Uma descoberta registrada por drones e câmeras subaquáticas está revelando novas dinâmicas na relação entre dois dos maiores predadores dos oceanos. Um estudo publicado na revista Frontiers in Marine Science documentou, pela primeira vez no México, orcas caçando tubarões-brancos juvenis para retirar e consumir exclusivamente seus fígados — órgãos extremamente ricos em gordura e energia.
O comportamento já havia sido observado na África do Sul, Austrália e Califórnia, mas nunca havia sido filmado de forma tão detalhada na costa mexicana. Segundo os pesquisadores, os ataques mostram coordenação, estratégia e aprendizado coletivo.
Caçada coreografada no mar
O episódio mais completo foi registrado em agosto de 2020, quando drones captaram um grupo de cinco orcas fêmeas cercando um jovem tubarão-branco. As imagens mostram as orcas trabalhando de forma coordenada: elas cercam o tubarão, viram seu corpo de cabeça para baixo e, em seguida, extraem o fígado com precisão cirúrgica, sem consumir o restante do animal.
Poucos minutos depois, o mesmo grupo realiza um segundo ataque contra outro tubarão juvenil, repetindo o procedimento.
Em 2022, uma gravação no mesmo local registrou uma nova caçada, desta vez com um grupo misto de orcas. Novamente, o alvo foi um tubarão-branco jovem — reforçando que a prática pode estar se tornando recorrente e sazonal naquela região.
Alucinante video de orca atacando a tiburón blanco 😮😮😮😮😮
De la serie #NatGeoQueens que se estrenará pronto.
Me he enterado gracias a @PolCa98 #fauna / Orcinus orca /, / Carcharodon carcharias / pic.twitter.com/43fznAemcR— Dr. BioBlogo (@DrBioblogo) February 25, 2024
A técnica da imobilidade tônica
Os pesquisadores destacam o uso de uma estratégia conhecida como imobilidade tônica. Quando um tubarão é virado de costas, seu corpo entra em um estado de paralisia temporária, permitindo que a presa seja manipulada com segurança.
“O manuseio da presa e a indução da imobilidade tônica são mais fáceis em tubarões menores, reduzindo o risco de ferimentos para as orcas”, explica o estudo.
Além de proteger as orcas de possíveis mordidas, a técnica garante acesso direto ao fígado, que pode representar até um terço do peso corporal do tubarão e funciona como reserva de energia.
Cultura de caça entre orcas
Segundo o autor do estudo, o biólogo e cinegrafista marinho Erick Higuera, a repetição dos ataques na mesma área ao longo dos anos sugere que esse comportamento está sendo transmitido dentro do grupo, algo que especialistas chamam de cultura animal.
“Parece ser algo específico de certos grupos de orcas que aprenderam essa técnica”, afirma Higuera.
A pesquisadora Alison Towner, que estuda interações entre tubarões e orcas na África do Sul, explica que quando uma técnica de caça se consolida em um grupo, ela tende a ser ensinada às gerações seguintes.
“Uma vez que a técnica passa a existir em um grupo, ela se torna parte de sua cultura de caça”, diz.
Impacto ecológico pode ser significativo
Tubarões-brancos já enfrentam pressões causadas pela pesca, perda de habitat e mudanças climáticas. O surgimento de orcas predadoras especializadas pode adicionar um novo fator de risco, especialmente para tubarões juvenis — que são essenciais para a reposição populacional.
Se a caça for recorrente e se espalhar entre diferentes grupos de orcas, o impacto pode se ampliar.
“A predação direcionada aos juvenis pode representar uma pressão adicional significativa sobre as populações de tubarões-brancos”, aponta o artigo.
Uma relação entre gigantes, agora registrada do alto
A combinação de drones e filmagens subaquáticas está abrindo novas janelas para observar comportamentos que antes eram invisíveis aos humanos. As imagens reforçam algo que cientistas vêm demonstrando há anos: orcas não são apenas fortes — são altamente inteligentes, capazes de adaptar estratégias e transmitir conhecimento.
No fundo do mar, a disputa pela sobrevivência é, cada vez mais, também uma disputa de aprendizado.
[ Fonte: CNN Brasil ]