Sentar-se na cadeira do dentista pode ser um pesadelo para muita gente, especialmente quando a perda de um dente exige um implante invasivo. Mas essa realidade pode mudar. Um grupo internacional de cientistas trabalha para cultivar dentes reais em laboratório, abrindo a porta para tratamentos que regeneram estruturas naturais em vez de substituí-las por próteses artificiais.
O nascimento de um dente biológico

A pesquisadora Ana Angelova Volponi, do King’s College London, lidera há quase duas décadas estudos sobre odontologia regenerativa. Em 2013, ela e sua equipe alcançaram um feito inédito: criaram um dente funcional combinando células humanas e de camundongo. O novo avanço, apresentado em 2025, aprimora o material usado para abrigar o dente em formação — um hidrogel biocompatível que imita as condições da cavidade bucal e favorece a comunicação entre as células.
Segundo Volponi, o processo depende de três elementos: dois tipos de células e o ambiente de suporte, chamado de “andame” ou scaffold, onde ocorre a formação. A equipe mistura células embrionárias de camundongo, centrifuga o material e o deposita no hidrogel, onde se formam estruturas conhecidas como “primórdios dentários” em menos de duas semanas.
Em experimentos anteriores, esses primórdios foram implantados em camundongos, onde se transformaram em dentes completos, com raiz e esmalte. O próximo desafio é substituir as células animais por células humanas adultas, sem perder a capacidade de desenvolver dentes plenamente funcionais.
Biomimética: aprender com a natureza
O princípio por trás dessa abordagem é o da biomimética — a ciência que busca reproduzir processos biológicos naturais para criar soluções médicas e tecnológicas. Em vez de fabricar dentes artificiais, a ideia é guiar as próprias células do corpo a reconstruir o tecido perdido, tal como ocorre durante o desenvolvimento natural dos dentes.
O novo hidrogel criado em parceria com o Imperial College London é um exemplo dessa filosofia: ele reproduz a textura, a umidade e os nutrientes do ambiente bucal, permitindo que as células “acreditem” estar crescendo dentro da gengiva.
Possíveis aplicações clínicas
Se a técnica for aperfeiçoada, os cientistas veem duas possibilidades clínicas principais. A primeira seria cultivar o dente até uma fase inicial e implantá-lo no espaço deixado pelo dente perdido, permitindo que ele finalize o crescimento dentro da boca. A segunda seria gerar toda a estrutura fora do corpo e, em seguida, implantá-la pronta, como ocorre com um transplante.
De acordo com o professor Vitor C. M. Neves, da Universidade de Sheffield, o trabalho de Volponi representa um marco para a engenharia dentária moderna. Ele acredita que a nova geração de matrizes biológicas pode industrializar o cultivo de dentes, tornando o processo controlado e replicável em clínicas no futuro.
Pesquisas paralelas ao redor do mundo
O campo da odontologia regenerativa cresce rapidamente. No Japão, o pesquisador Katsu Takahashi e sua equipe, do Kitano Hospital de Osaka, estão testando anticorpos capazes de estimular o crescimento de novos dentes em pessoas que nasceram sem algumas peças dentárias. Os testes clínicos em humanos já estão em andamento e podem trazer resultados até o final da década.
Nos Estados Unidos, a professora Pamela Yelick, da Universidade de Tufts, conseguiu desenvolver dentes semelhantes aos humanos a partir de células de porcos e humanas, que foram implantadas em porcos para estudar o processo de formação dentária. Já no Universidade de Washington, Hannele Ruohola-Baker cultiva células-tronco extraídas de sisos doados, com o objetivo de mapear o processo molecular de crescimento dentário humano e reproduzi-lo em laboratório.
Um futuro sem implantes artificiais

Todos esses esforços apontam para um mesmo destino: dentes regenerados a partir de células do próprio paciente. Além de eliminar o risco de rejeição, eles ofereceriam sensibilidade natural e flexibilidade, algo que os implantes de titânio atuais não conseguem reproduzir.
Como explica Ruohola-Baker, “os implantes são estruturas rígidas e inertes, enquanto os dentes naturais têm nervos e tecidos vivos”. A cientista acredita que os avanços da última década indicam que o crescimento de dentes humanos em laboratório poderá se tornar realidade nos próximos anos.
A biomimética, antes restrita à engenharia e ao design, começa agora a redesenhar também os sorrisos — literalmente.
[ Fonte: Infobae ]