O sucesso de Andor, série prequel de Star Wars criada por Tony Gilroy, vai muito além da trama envolvente e das atuações marcantes. A produção também se destaca por sua cenografia, que transforma paisagens e estruturas reais em elementos épicos de uma galáxia fictícia. Na segunda e última temporada, que estreou recentemente, a capital Coruscant assume papel central — e foi fortemente inspirada em construções reais.
De Valência para a galáxia

A versão de Coruscant em Andor surpreende pela profundidade e realismo visual. O responsável por essa ambientação, o designer de produção Luke Hull, revelou que parte da estética urbana foi inspirada na Cidade das Artes e das Ciências, em Valência, Espanha. Projetado pelos arquitetos Santiago Calatrava e Félix Candela, o complexo é conhecido por suas formas futuristas, estruturas monumentais e design ousado — atributos que se encaixam perfeitamente no universo de Star Wars.
“É um lugar que parece que já nasceu de um filme de ficção científica”, afirmou Hull em entrevista. Ele realizou uma extensa viagem de pesquisa por várias cidades europeias antes da produção da segunda temporada, visitando Paris, Madri, Lisboa e Barcelona, até chegar a Valência. Segundo ele, “a Cidade das Artes e das Ciências tinha a essência de ‘Upper Coruscant’, aquele lado mais sofisticado e formal da capital galáctica.”
Cenários reais, efeitos amplificados

O complexo espanhol — que já foi usado em outras produções como Westworld, Doctor Who e o filme Tomorrowland — serviu de base para várias cenas icônicas da série. Um dos edifícios mais reconhecíveis, o Museu de Ciências Príncipe Felipe, aparece como parte da praça do Senado Imperial. Em uma sequência marcante do nono episódio, é ali que Cassian Andor tenta resgatar a senadora Mon Mothma antes que ela seja presa.
Além disso, o Palácio das Artes Rainha Sofia inspirou o edifício onde vive Davo Sculdun, e a ponte de Montolivet, que atravessa o complexo, serviu como referência para a localização da cena final entre Luthen Rael e o espião Lonni Jung.
O supervisor de efeitos visuais Mohen Leon comentou que filmar em Valência foi essencial para manter o compromisso da série com cenários reais: “Cada canto parecia saído de Coruscant. Gravamos muito ali e depois apenas aprimoramos com efeitos. O local já oferecia uma estética formal e futurista que convencidamente poderia abrigar repartições do governo imperial.”
Estética, figurino e autenticidade
O cuidado com a ambientação foi além da arquitetura. O figurinista Michael Wilkinson trabalhou lado a lado com Hull para criar roupas que refletissem a diversidade galáctica e a hierarquia política do Senado. Senadores, auxiliares, seguranças e jornalistas tinham vestimentas cuidadosamente desenhadas para comunicar visualmente sua função e origem.
Wilkinson destacou que o desafio era transmitir, rapidamente, quem era quem. “Precisávamos mostrar a grandiosidade dos senadores, vindos de cantos distintos da galáxia, enquanto diferenciávamos os trabalhadores do dia a dia e a equipe de segurança com visuais mais contidos e práticos.”
Uma visão arquitetônica digna de Star Wars

Ao ser questionado sobre por que Valência exerce tanto fascínio entre cineastas de ficção científica, Hull foi direto: “Tudo o que Calatrava projeta parece ter vindo do futuro. O complexo é coeso, monumental e com formas que parecem feitas sob medida para contar histórias em mundos distantes.”
A Cidade das Artes e das Ciências é, de fato, uma cápsula do tempo lançada ao futuro. E saber que fãs de Star Wars já celebravam ali o May the Fourth em 2005, muito antes da série existir, dá à escolha desse cenário um ar quase profético — como se o próprio universo Star Wars tivesse encontrado sua casa na Terra.