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Ciência

Os grandes enigmas do autismo: o que a ciência já sabe — e o que ainda tenta descobrir

A busca pela origem do Transtorno do Espectro Autista avança lentamente entre hipóteses genéticas, fatores ambientais e muita desinformação. Mesmo com décadas de pesquisa, a ciência ainda tenta decifrar um dos maiores mistérios da mente humana — enquanto falsas teorias se espalham mais rápido do que os dados científicos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Apesar de ser amplamente estudado há mais de meio século, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) continua sem uma explicação única ou definitiva. Essa lacuna no conhecimento tem consequências reais: abre espaço para teorias sem fundamento, promessas de cura milagrosa e campanhas de desinformação que afetam diretamente famílias e políticas públicas.

Desinformação e falsas causas

Em setembro, uma fala do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reacendeu polêmicas ao afirmar que o uso de paracetamol durante a gestação poderia “causar” autismo — uma alegação sem respaldo científico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) foi categórica: não há evidência consistente que relacione o medicamento ao TEA.

No Brasil, o Ministério da Saúde classificou a disseminação desse tipo de conteúdo como irresponsável e prejudicial. O país tem cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo, segundo o Censo de 2022. Globalmente, a OMS estima que um em cada 127 indivíduos esteja dentro do espectro.

Um levantamento recente da FGV, em parceria com a Autistas Brasil, revelou que o volume de informações falsas sobre o autismo cresceu 15.000% entre 2019 e 2024 na América Latina — com o Brasil liderando publicações e comentários conspiratórios. Foram identificadas mais de 150 falsas causas, que vão desde o consumo de alimentos industrializados até vacinas e redes 5G, além de 150 supostas “curas”, muitas perigosas, como ingestão de dióxido de cloro e prata coloidal.

Essas narrativas, explica o psicólogo Guilherme Bracarense Filgueiras (UEL), exploram o fato de que o autismo ainda é um mistério. “São afirmações que buscam engajamento, não conhecimento. E isso tem impacto emocional profundo, especialmente sobre as famílias”, diz.

O enigma científico

O TEA é um transtorno complexo, multifatorial e extremamente variável entre indivíduos. Durante os anos 1950 e 1960, chegou-se a culpar os pais — especialmente as mães — por uma suposta “falta de afeto”, na chamada teoria da mãe-geladeira. Hoje, essa ideia é amplamente refutada.

Estudos modernos, como o publicado em 1977 no Journal of Child Psychology and Psychiatry, demonstraram forte influência genética: entre 20% e 25% dos casos têm origem em mutações raras em um ou poucos genes. Mesmo assim, nenhuma mutação única explica todos os casos, como explica a bióloga Andréa Laurato Sertié, do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.

A hipótese mais aceita hoje é a poligênica e multifatorial — ou seja, pequenas variações genéticas que, somadas, ultrapassam um limiar de suscetibilidade, muitas vezes influenciado por fatores ambientais. Entre os fatores de risco estudados estão idade avançada dos pais, infecções durante a gestação, complicações obstétricas e exposição a substâncias tóxicas.

Um estudo de 2015 no Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics mostrou que a combinação entre mutações genéticas raras e infecções maternas graves pode agravar déficits sociais e comportamentais em indivíduos com TEA, indicando que a interação entre genes e ambiente é chave para compreender o transtorno.

Diagnóstico cada vez mais precoce

Crianca Rechazo
© Getty Images – Unsplash

O diagnóstico do autismo ainda é essencialmente clínico, baseado na observação e entrevistas com familiares. No entanto, ele se tornou mais sensível e inclusivo. Em 2025, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) publicou novas diretrizes para diagnóstico e tratamento, recomendando que o rastreamento comece aos 14 meses de idade.

As novas orientações incluem exames genéticos, como o microarranjo genômico e o sequenciamento completo do exoma, para mapear mutações e riscos familiares. A SBNI também recomenda que o nível de suporte (de 1 a 3) seja definido com o tempo, à medida que o desenvolvimento da criança se manifesta.

Segundo Sertié, “os sintomas variam muito — alguns têm déficits severos de comunicação, outros apresentam inteligência acima da média. Essa heterogeneidade exige abordagens personalizadas”.

Tratamentos sob medida e medicina de precisão

O autismo não é uma doença, e sim uma condição neurodivergente. Ainda assim, o tratamento adequado é crucial para o bem-estar e a autonomia das pessoas com TEA. As intervenções mais eficazes combinam terapias comportamentais, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicopedagogia e apoio familiar contínuo.

Na área farmacológica, não há um remédio que trate os sintomas centrais do transtorno. No entanto, os avanços da genética e da medicina de precisão permitem identificar subgrupos com perfis biológicos específicos — um passo importante para terapias direcionadas.

Um exemplo é o uso experimental da leucovorina, uma forma ativa do ácido fólico. Estudos sugerem que, em indivíduos com deficiência no metabolismo do folato, o suplemento pode melhorar a linguagem e o comportamento. Mas os especialistas alertam: trata-se de um tratamento para casos raros, e não uma cura universal.

“A medicina de precisão busca entender o indivíduo, não generalizar o transtorno”, resume Sertié.

Entre ética, ciência e aceitação

O maior desafio da ciência não é apenas desvendar o autismo — é compreendê-lo com empatia e rigor, sem cair em promessas falsas. “Hoje, o foco é promover autonomia, respeito e inclusão”, diz a neuropediatra Marcela Rodríguez de Freitas (UFF).

Mais do que encontrar causas, a meta é garantir qualidade de vida. Afinal, o autismo não é um erro a ser corrigido, mas uma expressão legítima da diversidade humana.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

 

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