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Ciência

Oxford finalmente descobriu por que quase todos os humanos usam mais a mão direita

Um dos mistérios mais estranhos da evolução humana pode ter sido resolvido após um estudo analisar dezenas de espécies de primatas e encontrar um padrão que nos torna únicos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quase ninguém pensa nisso no dia a dia, mas o fato de a maioria absoluta das pessoas preferir usar a mão direita é uma enorme anomalia biológica. Em praticamente todas as culturas do planeta, cerca de 90% da população é destra — algo que não acontece com nenhum outro primata conhecido. Durante décadas, cientistas tentaram explicar essa diferença através da genética, do cérebro e até da cultura. Agora, um estudo liderado por pesquisadores de Oxford trouxe uma resposta inesperada.

O estudo que comparou humanos com dezenas de espécies de primatas

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Oxford em parceria com especialistas da Universidade de Reading. O grupo analisou dados de lateralidade — ou seja, preferência por uma das mãos — em 2.025 indivíduos pertencentes a 41 espécies diferentes de macacos e grandes primatas.

O objetivo era testar as principais teorias já criadas para explicar por que os seres humanos desenvolveram uma preferência tão extrema pela mão direita.

Durante décadas, pesquisadores levantaram hipóteses envolvendo uso de ferramentas, alimentação, comportamento social, tamanho corporal, habitat e até fatores culturais. Mas os resultados do novo estudo mostraram algo curioso: nenhuma dessas explicações parecia suficiente para justificar a enorme diferença entre humanos e os demais primatas.

Chimpanzés, gorilas e orangotangos, por exemplo, possuem indivíduos destros e canhotos em proporções relativamente equilibradas. Nenhuma espécie apresenta um padrão populacional tão dominante quanto o observado entre humanos.

Publicado na revista científica PLOS Biology, o estudo utilizou modelos evolutivos avançados para comparar padrões anatômicos e comportamentais entre espécies. E os pesquisadores perceberam que os humanos pareciam um “ponto fora da curva” em praticamente todas as análises.

Até que duas variáveis específicas entraram no modelo.

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© Alex Gisby – Unsplash

As duas características que mudaram completamente o resultado

Segundo os pesquisadores, os fatores decisivos foram o tamanho do cérebro e uma característica ligada diretamente ao bipedalismo.

Os cientistas analisaram o chamado índice intermembral, que compara o comprimento dos braços com o das pernas. Nos humanos, as pernas são proporcionalmente muito mais longas, uma adaptação associada ao ato de caminhar ereto.

Quando essas duas variáveis — cérebro maior e bipedalismo — foram adicionadas ao modelo evolutivo, os humanos deixaram de parecer uma anomalia estatística.

A hipótese proposta pelos pesquisadores funciona em duas etapas.

Primeiro teria surgido o bipedalismo. Quando os ancestrais humanos começaram a andar sobre duas pernas, as mãos deixaram de ser usadas principalmente para locomoção. Isso abriu espaço para funções mais especializadas, como carregar objetos, manipular ferramentas e realizar movimentos mais precisos.

Depois veio a expansão cerebral.

À medida que o gênero Homo desenvolveu cérebros maiores, a lateralização teria se intensificado, transformando uma leve preferência manual em um padrão extremamente dominante dentro da espécie humana.

O detalhe da evolução que pode ter iniciado tudo

O estudo também encontrou uma relação importante entre forma de locomoção e preferência manual em outros primatas.

Espécies arborícolas, que vivem e se movimentam entre árvores, costumam apresentar lateralidade mais forte do que espécies terrestres. Isso acontece porque se locomover pelos galhos exige coordenação extremamente precisa e movimentos especializados.

Quando os ancestrais humanos abandonaram parte da vida nas árvores e passaram a caminhar eretos, essa especialização manual teria ganhado uma nova função. As mãos ficaram completamente livres para atividades complexas, acelerando o desenvolvimento da lateralização.

A pesquisa ainda sugere que espécies humanas extintas poderiam ter apresentado padrões diferentes dos atuais. Um caso curioso é o Homo floresiensis, conhecido como “hobbit”, cujas proporções corporais incomuns podem indicar preferências manuais distintas do restante do gênero humano.

Claro que o estudo não resolve tudo.

Os pesquisadores reconhecem que ainda faltam explicações sobre os mecanismos genéticos e neurológicos específicos que conectam bipedalismo, cérebro e preferência manual. Fatores culturais e ambientais também podem ter influenciado o processo ao longo da evolução.

Mesmo assim, a descoberta muda bastante a forma como cientistas enxergam um dos comportamentos mais comuns — e mais misteriosos — da humanidade.

No fim, a explicação talvez não estivesse apenas nas mãos.

Mas na forma como começamos a caminhar.

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