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Tecnologia

Wall Street teme um novo fenômeno bilionário — e a inteligência artificial pode estar no centro disso

Grandes empresas ligadas à inteligência artificial e ao setor espacial podem provocar um movimento financeiro sem precedentes, obrigando bolsas e fundos globais a mudarem suas próprias regras.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante anos, gigantes da tecnologia dominaram os mercados financeiros com crescimento acelerado, promessas ambiciosas e avaliações bilionárias. Mas o que começa a surgir agora parece operar em outra escala. Um novo relatório de Wall Street sugere que algumas empresas privadas ligadas à inteligência artificial podem desencadear uma transformação tão grande que até bolsas americanas já estão se preparando para absorver o impacto.

As empresas que podem mudar o equilíbrio do mercado global

O relatório publicado pelo Bradesco BBI não fala apenas sobre possíveis estreias na bolsa. Ele descreve um cenário capaz de alterar o fluxo global de capital em escala inédita.

Segundo a análise, futuras ofertas públicas iniciais de empresas como SpaceX, OpenAI e Anthropic poderiam se tornar algumas das maiores da história do setor tecnológico. Juntas, elas teriam potencial para captar até US$ 165 bilhões em seus IPOs, um valor gigantesco até mesmo para os padrões de Wall Street.

O ponto mais impressionante é que o impacto não ficaria restrito aos Estados Unidos.

Nos últimos meses, parte do dinheiro global vinha migrando para mercados emergentes em busca de novas oportunidades. Mas analistas acreditam que a chegada dessas empresas ao mercado pode inverter parcialmente esse movimento. A lógica é relativamente simples: poucas coisas atraem tanto capital quanto companhias vistas como protagonistas da próxima grande revolução tecnológica.

E atualmente a inteligência artificial ocupa exatamente esse papel.

Entre as três empresas mencionadas, a SpaceX aparece como o caso mais extremo. O relatório estima que a companhia espacial de Elon Musk poderia chegar ao mercado com uma avaliação próxima de US$ 1,75 trilhão, entrando imediatamente entre as empresas mais valiosas do planeta.

Mas existe um detalhe ainda mais delicado envolvendo essas possíveis estreias.

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© Orhan Akkurt

O problema não é apenas o tamanho — mas a falta de ações disponíveis

Ao contrário de muitas gigantes da tecnologia no passado, essas empresas poderiam abrir capital oferecendo uma parcela extremamente pequena de ações ao mercado.

O relatório fala em “free float” entre 2% e 7%, o que significa que poucas ações estariam disponíveis para uma demanda potencialmente gigantesca. Essa combinação costuma gerar movimentos muito agressivos em preços, ETFs e fundos indexados.

É justamente por isso que Nasdaq, FTSE Russell e S&P já estudam mudanças em suas regras.

A Nasdaq, por exemplo, aprovou mecanismos para acelerar a entrada de empresas gigantes em seus índices após apenas algumas semanas de negociação. A preocupação é prática: se companhias desse porte chegarem ao mercado com avaliações bilionárias, grandes fundos precisarão incorporá-las rapidamente para evitar distorções em índices globais.

E aí começa o possível efeito dominó.

Quando uma empresa entra em ETFs e fundos passivos, bilhões de dólares passam a ser direcionados automaticamente para suas ações. Quanto maior o peso dessas companhias nos índices, maior também a concentração de capital em torno delas.

O relatório evita afirmar que o mercado está vivendo uma nova bolha “dot-com”, como a do fim dos anos 1990. Mas admite que o cenário já apresenta tensões incomuns.

A inteligência artificial pode reorganizar o fluxo global de dinheiro

Segundo o Bradesco BBI, empresas ligadas à inteligência artificial poderiam estrear na bolsa negociando múltiplos superiores a 50 vezes suas receitas. Para comparação, o S&P 500 atualmente gira próximo de 3,5 vezes receita média.

Mesmo assim, os analistas argumentam que ainda existem fundamentos reais sustentando parte desse entusiasmo: crescimento acelerado, aumento de receita e expectativas ligadas à expansão da IA em praticamente todos os setores da economia.

O risco, portanto, talvez não esteja em uma bolha clássica — mas sim em uma concentração extrema de capital ao redor de poucas empresas consideradas estratégicas.

Curiosamente, o relatório também aponta possíveis efeitos positivos para mercados emergentes. Parte do dinheiro levantado nessas ofertas públicas poderia acabar financiando infraestrutura global de inteligência artificial, beneficiando fabricantes asiáticos de chips, memórias e componentes tecnológicos.

Empresas como Samsung, SK Hynix e TSMC aparecem entre as potenciais beneficiadas indiretas desse movimento.

A projeção do banco é gigantesca: os principais hyperscalers americanos poderiam investir cerca de US$ 740 bilhões em infraestrutura já no próximo ano.

E isso ajuda a explicar por que Wall Street acompanha essas futuras ofertas públicas com tanta atenção.

No fundo, talvez não estejamos falando apenas de IPOs históricos.

Estamos falando da possibilidade de a inteligência artificial começar a reorganizar o próprio funcionamento do sistema financeiro global.

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