No coração da Anatólia, uma descoberta arqueológica inesperada está reacendendo o interesse por tradições milenares — e, de quebra, está revolucionando o paladar de muitos turcos. Um pedaço de pão carbonizado de cinco milênios foi encontrado em escavações e inspirou a criação de uma nova iguaria: o “pão de Kulluoba”. A seguir, conheça a história dessa receita ancestral e como ela está impactando até o debate sobre a sustentabilidade na agricultura atual.
A descoberta de um pão milenar
Durante escavações em setembro de 2024 no sítio arqueológico de Kulluoba Höyük, em Eskişehir, centro da Turquia, arqueólogos encontraram um pedaço de pão carbonizado enterrado sob o limiar de uma antiga residência. O local remonta à Idade do Bronze e vem sendo investigado há décadas. A descoberta surpreendeu os especialistas pela excelente preservação da peça.
Segundo Murat Turkteki, arqueólogo e diretor da escavação, trata-se do mais antigo pão assado já descoberto durante um trabalho arqueológico, e o alimento ainda conserva sua forma original. Desde março de 2025, o exemplar está em exibição no Museu Arqueológico de Eskişehir.
Os ingredientes do passado
A análise do pão revelou uma composição simples, porém inusitada: farinha de trigo emmer (uma variedade antiga de trigo), sementes de lentilha e uma folha vegetal usada como fermento natural. O formato era achatado, como uma panqueca, e com cerca de 12,7 cm de diâmetro.
Empolgados com a possibilidade de reviver a receita, autoridades locais procuraram a padaria Halk Ekmek, em Eskişehir, para tentar recriá-la. Como o trigo emmer não é mais cultivado na Turquia, os padeiros recorreram ao trigo Kavilca — um parente próximo — e adicionaram bulgur e lentilhas para chegar o mais próximo possível da receita original.
Um sabor que conquistou a cidade
O resultado surpreendeu: o primeiro lote do chamado “pão de Kulluoba” esgotou-se em poucas horas. Desde então, a padaria tem vendido cerca de 300 unidades por dia. Com apoio da prefeitura, o pão é vendido a um preço acessível de 50 liras turcas (cerca de US$1,30), o que ajudou ainda mais na sua popularização.
Mais do que saboroso, o pão chamou a atenção por outro fator: os ingredientes utilizados são provenientes de culturas altamente resistentes à seca.
Uma lição do passado para o futuro da agricultura
O sucesso da receita vai além do resgate histórico. Em tempos de crise climática e escassez de água, a resistência do trigo Kavilca à seca e a doenças chamou a atenção de especialistas e autoridades. Atualmente, a Turquia cultiva produtos que exigem muita água, como milho e girassol, o que pode se tornar inviável a longo prazo.
Para a prefeita de Eskişehir, Ayse Unluce, a receita ancestral traz um recado importante: “Nossos antepassados estão nos ensinando algo. Assim como eles, precisamos optar por culturas que consumam menos água.”
O pão de Kulluoba é muito mais do que um item de padaria — é um elo entre passado e futuro, um símbolo de identidade cultural e uma inspiração para práticas agrícolas mais sustentáveis. O que começou como uma curiosidade arqueológica virou um exemplo vivo de como tradições antigas ainda podem nos alimentar — literal e metaforicamente — nos dias de hoje.