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Ciência

Pesquisadores acompanharam 260 crianças e descobriram que a história das telas é mais complicada

Durante anos, o tempo diante das telas foi tratado como um dos grandes vilões da infância. Mas uma pesquisa de longo prazo encontrou uma associação que coloca essa certeza em xeque.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Computador, videogame, tablet e celular costumam aparecer nas discussões sobre infância quase sempre acompanhados de alertas. Quanto mais tempo diante deles, pior seria o impacto sobre atenção e desenvolvimento. Mas um estudo que acompanhou crianças durante anos encontrou um resultado que não se encaixa tão facilmente nessa narrativa. A descoberta não transforma as telas em algo automaticamente positivo, mas sugere que talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Oito anos acompanhando crianças até a adolescência

A pesquisa foi realizada por cientistas das universidades finlandesas de Jyväskylä e da Finlândia Oriental e acompanhou 260 crianças ao longo de oito anos, desde a infância até a adolescência.

Os participantes tinham, ao final do acompanhamento, idade média de 15,8 anos. O grupo era formado por 124 meninas e 136 meninos, avaliados em diferentes momentos: no início do estudo, dois anos depois e novamente ao final do período.

Os pesquisadores reuniram informações sobre o tempo que cada criança passava diante de telas, além de atividades físicas e períodos de comportamento sedentário. Para complementar os questionários, também utilizaram dispositivos capazes de registrar movimentos e frequência cardíaca.

Na adolescência, os participantes passaram por testes cognitivos da bateria CogState, que avaliou aspectos como atenção, aprendizagem, memória de trabalho e desempenho cognitivo geral.

Foi justamente nessa etapa que surgiu o resultado mais curioso. Os jovens que haviam relatado maior exposição às telas ao longo dos anos apresentaram respostas mais rápidas em determinadas tarefas de memória de trabalho e também obtiveram melhores resultados em uma medida geral de desempenho cognitivo.

O estudo, publicado na Pediatric Exercise Science, faz parte do projeto PANIC, uma pesquisa de acompanhamento voltada a compreender diferentes aspectos da saúde e do desenvolvimento infantil.

A descoberta, porém, está longe de significar que simplesmente aumentar o número de horas diante de uma tela faça uma criança ficar mais inteligente.

Talvez o relógio não conte toda a história

Existe uma diferença importante entre passar duas horas assistindo passivamente a vídeos e passar o mesmo período programando, criando algo, resolvendo problemas, estudando ou jogando um game que exige atenção constante.

Essa distinção ajuda a entender por que os pesquisadores evitam transformar os resultados em uma recomendação para aumentar o tempo de tela.

O estudo não registrou de maneira detalhada exatamente quais conteúdos e atividades digitais cada participante consumia. Portanto, não é possível afirmar se determinadas formas de entretenimento, jogos, ferramentas educacionais ou outras experiências digitais explicam a associação encontrada.

Também existe outra possibilidade: crianças e adolescentes que já possuem determinadas características cognitivas podem simplesmente ser mais atraídos por determinados usos da tecnologia. Nesse caso, a relação funcionaria no sentido contrário ao que uma interpretação apressada poderia sugerir.

É por isso que os resultados não permitem concluir que as telas causaram o melhor desempenho cognitivo.

Ainda assim, a pesquisa levanta uma questão importante para pais e educadores. Em vez de considerar todo tempo de tela como uma categoria única, talvez seja mais útil observar o que a criança está fazendo durante esse período.

Uma atividade digital que exige criatividade, planejamento e tomada de decisões pode representar uma experiência completamente diferente daquela em que a criança apenas consome conteúdo de maneira passiva.

O resultado não significa liberar as telas sem limites

A atividade física também apareceu na análise, mas de maneira mais complexa. Entre as meninas, níveis maiores de atividade física leve estiveram associados a melhor desempenho em tarefas de memória de trabalho. Entre os meninos, a relação apareceu principalmente em atividades orientadas, como esportes organizados e educação física.

Por outro lado, os dados registrados pelos sensores sobre movimento e comportamento sedentário não apresentaram uma associação clara com o desempenho cognitivo. As relações encontradas apareceram principalmente nas informações fornecidas pelos próprios participantes.

Esse detalhe é relevante porque o tempo de tela também foi informado pelos jovens, e não medido diretamente pelos dispositivos.

No fim, a pesquisa não oferece uma autorização científica para deixar crianças diante de telas por tempo ilimitado. Ela mostra algo mais interessante: a quantidade de horas, isoladamente, pode ser uma medida insuficiente para entender os efeitos da tecnologia sobre o desenvolvimento.

A mensagem dos pesquisadores é justamente incentivar usos que estimulem pensamento ativo, criatividade, aprendizagem e resolução de problemas.

Isso muda bastante a perspectiva. A questão talvez não seja simplesmente perguntar quanto tempo uma criança passou diante de uma tela, mas também perguntar o que ela fez, aprendeu ou criou durante esse tempo — e o que deixou de fazer para estar ali.

O estudo finlandês não inocenta as telas nem prova que elas melhoram o cérebro. Mas mostra que a velha equação “mais tela = pior desenvolvimento” pode ser simples demais para explicar uma realidade muito mais complexa.

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