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Ciência

Uma das bebidas mais consumidas do mundo pode esconder um efeito inesperado sobre o fígado

Uma pesquisa acompanhou centenas de milhares de pessoas durante anos e encontrou uma associação surpreendente entre uma bebida cotidiana e menores riscos relacionados à saúde do fígado.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Para milhões de pessoas, o café é apenas o empurrão necessário para começar o dia. Mas a bebida que acompanha manhãs, reuniões e intervalos também está no radar da ciência por motivos que vão muito além da cafeína. Um grande estudo encontrou associações entre seu consumo e diferentes indicadores de saúde hepática. Os resultados chamam atenção, embora tragam um aviso fundamental: colocar mais café na xícara não significa automaticamente multiplicar os benefícios.

Um estudo acompanhou mais de 350 mil pessoas

Uma das bebidas mais consumidas do mundo pode esconder um efeito inesperado sobre o fígado
© Pexels

O café está entre os alimentos e bebidas mais investigados pela ciência, com pesquisas envolvendo desde seus efeitos estimulantes até possíveis propriedades antioxidantes.

Agora, o fígado voltou ao centro dessa discussão.

Um estudo publicado na revista médica Clinical Gastroenterology and Hepatology analisou 354.957 participantes do Reino Unido, nenhum deles com cirrose ou carcinoma hepatocelular no início da investigação. O acompanhamento se estendeu por 13 anos.

Os resultados encontraram uma associação importante.

Pessoas que consumiam uma ou duas xícaras de café diariamente apresentaram risco 20% menor de cirrose e 24% menor de câncer de fígado. Também foi observada uma redução de 31% no risco de morte relacionada a doenças hepáticas.

Entre aqueles que bebiam cinco ou mais xícaras por dia, a associação com o câncer hepático foi ainda maior: o risco apareceu 47% menor.

Isso não significa, porém, que tomar grandes quantidades de café seja uma estratégia recomendada para prevenir doenças. Estudos observacionais encontram associações, mas não conseguem provar sozinhos que a bebida seja diretamente responsável por toda a redução observada.

O segredo pode estar escondido dentro da xícara

Uma das bebidas mais consumidas do mundo pode esconder um efeito inesperado sobre o fígado
© Pexels

Por que o café apresentaria essa relação com a saúde do fígado?

Daniela González, nutricionista e acadêmica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Santiago, explica que a bebida reúne diferentes compostos bioativos.

Entre os mais importantes estão a cafeína e os ácidos clorogênicos, substâncias com propriedades antioxidantes. O café também possui componentes como cafestol, kahweol, trigonelina e melanoidinas.

As pesquisas sugerem diferentes mecanismos pelos quais essas substâncias poderiam atuar.

Um deles envolve as chamadas células estreladas hepáticas, relacionadas ao processo de formação de fibrose. Compostos presentes no café também podem ajudar a reduzir estresse oxidativo e inflamação, enquanto outras substâncias são investigadas por possíveis interferências em vias celulares associadas à proliferação de células tumorais.

Há, entretanto, uma ressalva importante. Parte das evidências sobre esses mecanismos vem de estudos experimentais. Portanto, resultados observados em laboratório não podem ser automaticamente interpretados como efeitos comprovados no organismo humano.

E existe outra surpresa: os potenciais compostos benéficos não desaparecem completamente quando o café vem de um pote.

Até o café instantâneo conserva parte dessas substâncias

Quem prefere café solúvel também pode encontrar alguns desses componentes.

Segundo González, o café instantâneo conserva cafeína e ácidos clorogênicos, embora em proporções que podem ser menores dependendo do produto e do processamento.

A questão mais importante, entretanto, não é escolher entre café moído ou instantâneo. É entender quanto consumir.

Para adultos saudáveis, a especialista aponta um consumo moderado, na faixa de três ou quatro xícaras por dia, respeitando aproximadamente 400 mg de cafeína diária.

Aqui vale corrigir um detalhe do texto original, que menciona “400 gramas”: a referência compatível com as recomendações usuais é 400 miligramas de cafeína, não 400 gramas.

E mais não significa necessariamente melhor.

Quando o consumo aumenta demais, os efeitos estimulantes podem cobrar seu preço. Insônia, ansiedade, tremores e palpitações estão entre as possíveis consequências do excesso de cafeína.

Além disso, a tolerância varia bastante entre indivíduos. Algumas pessoas apresentam efeitos desagradáveis com quantidades muito inferiores.

Quem tem gordura no fígado também entrou no radar dos pesquisadores

Os estudos sobre café ganham interesse especial diante da enorme prevalência da doença hepática esteatótica, popularmente conhecida como gordura no fígado.

Segundo González, evidências nesse grupo associam o consumo da bebida a menor presença de fibrose e menor progressão da doença.

No caso das hepatites virais, a situação é menos clara.

Os resultados são mais variáveis para hepatite B. Para hepatite C, algumas pesquisas encontraram associações favoráveis, mas isso está longe de demonstrar que o café consiga impedir sozinho a progressão da doença.

Essa distinção é fundamental.

Café pode fazer parte da rotina, mas não é medicamento

Os resultados científicos tornam o café interessante do ponto de vista nutricional, mas não transformam uma xícara em tratamento.

Quem já possui uma doença hepática diagnosticada não deve substituir acompanhamento médico, medicamentos ou mudanças recomendadas no estilo de vida por café.

Também não faz sentido começar a beber cinco ou seis xícaras diariamente apenas porque determinado estudo encontrou uma associação estatística favorável em pessoas com maior consumo.

O aspecto mais interessante das pesquisas está justamente em outro lugar.

Uma bebida consumida há séculos e presente na rotina de bilhões de pessoas contém uma combinação extremamente complexa de substâncias biologicamente ativas. A ciência ainda está tentando compreender exatamente como elas interagem com nosso organismo.

O café pode continuar sendo aquela pequena dose de energia que ajuda a enfrentar a manhã. Mas, dentro da xícara, parece existir muito mais química acontecendo do que apenas a cafeína responsável por nos manter acordados.

[Fonte: Diariousach]

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