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Ciência

Pesquisadores descobrem uma possível razão para o cérebro controlar o lado oposto do corpo

Uma característica surpreendente do cérebro humano pode ter surgido muito antes dos primeiros mamíferos. Nova hipótese científica busca explicar uma conexão que atravessou milhões de anos de evolução.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando você movimenta a mão direita, grande parte dos comandos responsáveis por esse movimento vem do lado esquerdo do cérebro. O contrário também acontece. Essa organização aparentemente invertida está presente em inúmeros vertebrados e intriga pesquisadores há mais de cem anos. Agora, uma investigação sugere que a explicação pode estar escondida em estruturas muito mais antigas do que imaginávamos, herdadas de animais que viveram há aproximadamente 500 milhões de anos.

Por que o lado esquerdo do cérebro controla o lado direito do corpo?

O cérebro humano possui uma característica conhecida como organização contralateral: muitas das vias nervosas que controlam movimentos e processam sensações cruzam de um lado para o outro do sistema nervoso.

Isso significa que o hemisfério esquerdo participa do controle de diversos movimentos do lado direito do corpo, enquanto o hemisfério direito desempenha funções equivalentes no lado esquerdo.

Embora essa disposição seja bem conhecida pela neurociência, sua origem evolutiva continua sendo debatida.

Uma nova hipótese apresentada pelos pesquisadores Martin W. Wessendorf e Daniel Delie Wang, da Universidade de Minnesota, oferece uma explicação surpreendente.

Segundo o estudo publicado na revista científica Frontiers in Neuroanatomy, essa arquitetura pode ter começado a se desenvolver nos primeiros vertebrados, durante o período Cambriano.

A proposta sugere que as conexões cruzadas não surgiram inicialmente para aperfeiçoar os movimentos.

Na verdade, elas poderiam representar uma herança de sistemas nervosos muito antigos, relacionados principalmente ao processamento das informações visuais.

A resposta pode estar na maneira como nossos olhos enxergam o mundo

Quando observamos algo localizado à direita do nosso campo visual, as informações correspondentes são processadas principalmente pelo hemisfério esquerdo do cérebro.

Esse mecanismo depende de estruturas como o quiasma óptico, região onde parte das fibras nervosas provenientes dos olhos atravessa para o lado oposto.

O padrão aparece em diferentes grupos de vertebrados, incluindo peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos.

Sua ampla distribuição sugere uma origem evolutiva extremamente antiga.

Os pesquisadores propõem que os primeiros circuitos visuais cruzados tenham funcionado como uma espécie de modelo para outras conexões nervosas.

Uma estrutura particularmente importante nessa hipótese é o teto óptico, região cerebral antiga envolvida no processamento visual e na orientação de respostas rápidas aos estímulos externos.

Nos mamíferos, uma estrutura correspondente é o colículo superior.

Com o passar de milhões de anos, circuitos associados ao tato, à dor e ao movimento poderiam ter se desenvolvido de maneira compatível com essa organização já existente.

Assim, a arquitetura cruzada do cérebro moderno talvez seja uma consequência indireta da evolução da visão.

BiOSystems
© NIH’s National Institute of Neurological

A evolução pode ter preservado uma solução que já funcionava

A hipótese apresenta uma possibilidade interessante: nem todas as características do corpo humano surgiram porque representavam a solução mais eficiente possível.

Algumas podem ter sido preservadas simplesmente porque já estavam integradas a sistemas biológicos funcionais.

Segundo os pesquisadores, quando estruturas cerebrais mais complexas evoluíram, incluindo a expansão do córtex dos mamíferos, diversas conexões sensoriais e motoras já apresentavam organização contralateral.

Modificar completamente essas rotas poderia exigir uma reorganização profunda do sistema nervoso.

Também poderia aumentar a necessidade de conexões e o consumo de recursos energéticos.

Em vez disso, a evolução teria aproveitado a arquitetura disponível, incorporando novas funções sobre circuitos estabelecidos anteriormente.

Essa interpretação ajuda a compreender por que uma organização aparentemente pouco intuitiva permaneceu presente em tantas espécies ao longo de centenas de milhões de anos.

Entretanto, os autores ressaltam que essa explicação ainda precisa ser investigada.

O mistério ainda não foi completamente resolvido

Apesar de apresentar uma hipótese consistente com características observadas em diferentes vertebrados, o estudo não demonstra diretamente como funcionava o cérebro dos animais que viveram no Cambriano.

As conclusões dependem principalmente da comparação entre estruturas nervosas preservadas nas espécies atuais.

Além disso, existem outras explicações possíveis.

Uma pesquisa publicada na revista BioSystems, em janeiro de 2026, também relacionou a origem das conexões cruzadas à visão, mas apresentou um mecanismo diferente, envolvendo a geometria dos campos visuais e a coordenação motora.

Outro detalhe importante é que nem todas as conexões nervosas atravessam para o hemisfério oposto.

O cérebro possui circuitos bilaterais e vias que permanecem no mesmo lado do corpo, tornando sua organização muito mais complexa.

Portanto, a nova pesquisa não encerra um debate centenário, mas oferece uma explicação evolutiva plausível para uma das características mais curiosas do sistema nervoso.

Se a hipótese estiver correta, cada movimento cotidiano poderá carregar uma marca de estruturas nervosas desenvolvidas pelos primeiros vertebrados, muito antes do surgimento dos seres humanos.

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