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Ciência

O “primeiro cérebro” surgiu no intestino? Uma hipótese propõe repensar a evolução do sistema nervoso

Pesquisadores sugerem que a necessidade de obter e processar alimento pode ter impulsionado as primeiras redes nervosas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O intestino costuma receber o apelido de “segundo cérebro” por abrigar uma extensa rede de neurônios capaz de coordenar funções digestivas. Mas pesquisadores da Universidade Flinders, na Austrália, propõem inverter essa ordem: e se essa rede representar uma organização nervosa mais antiga, enquanto o cérebro teria evoluído posteriormente? A ideia aparece em um artigo de opinião científica que discute a origem do sistema nervoso e a maneira como entendemos sua organização.

Uma hipótese sobre as necessidades mais básicas da vida

O argumento parte de uma questão fundamental: antes de comportamentos complexos, os organismos precisavam conseguir energia para sobreviver. Captar alimento, processá-lo e coordenar respostas digestivas eram desafios centrais.

Segundo a apresentação da Universidade Flinders, os autores sugerem que essas necessidades podem ter favorecido o aparecimento de uma organização nervosa associada ao intestino. Nessa perspectiva, a evolução do cérebro teria ocorrido posteriormente, apoiando funções necessárias à sobrevivência do organismo.

Isso não estabelece uma sequência histórica comprovada. A proposta utiliza conhecimentos de fisiologia e biologia evolutiva para formular outra maneira de interpretar o problema.

O intestino já possui uma rede nervosa própria

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© Imagem gerada por inteligência artificial – Gizmodo BR

A base fisiológica da discussão é o sistema nervoso entérico, uma rede presente no trato gastrointestinal. Ela consegue detectar condições locais, processar informações e coordenar respostas sem depender de uma ordem do encéfalo para cada etapa.

Essa autonomia ajuda a explicar o apelido de “segundo cérebro”. Entretanto, a expressão descreve capacidades de processamento e coordenação, sem significar que o intestino pense como uma pessoa.

Pesquisas experimentais mostram como essa organização é sofisticada. Em 2021, uma equipe liderada por Nick Spencer investigou a atividade nervosa e muscular do intestino grosso de camundongos. Os pesquisadores registraram sinais elétricos e mudanças no diâmetro da parede intestinal para estudar como os neurônios coordenam a propulsão do conteúdo.

O trabalho identificou padrões de sincronização entre populações de neurônios, mostrando que a movimentação intestinal depende de uma atividade coletiva organizada.

O que significa colocar o intestino no “centro”

O ‘intestino permeável’ virou fenômeno nas redes sociais — mas a ciência faz uma distinção importante
© Unsplash

O artigo publicado no The Journal of Physiology, assinado por Tim Hibberd, Hayley Rhodes e Nick J. Spencer, também participa de um debate sobre a linguagem usada para descrever o sistema nervoso.

No resumo disponível no repositório da universidade, os autores concordam que existe um único sistema nervoso, com integração distribuída entre diferentes estruturas. Eles questionam, porém, a ideia de que cérebro e medula sejam intrinsecamente centrais, enquanto o aparato nervoso dos órgãos ocupe necessariamente um papel periférico.

A discussão vai além de trocar nomes. A classificação pode influenciar quais estruturas recebem atenção quando os cientistas procuram explicar o funcionamento do organismo.

Isso tampouco elimina a importância do cérebro. A proposta convida a analisar como as partes cooperam, sem assumir que toda coordenação começa em um único ponto de comando.

A comunicação acontece nos dois sentidos

A relação entre intestino e cérebro já constitui uma área ativa de pesquisa. Essa comunicação envolve sinais que seguem do sistema nervoso central para o trato digestivo e informações que percorrem o caminho inverso.

Um exemplo aparece em uma pesquisa anterior da Universidade Flinders sobre o eixo intestino-cérebro. O grupo estudou a relação entre células enterocromafins, que liberam substâncias em resposta a estímulos, e terminações nervosas sensoriais na parede intestinal.

Os pesquisadores utilizaram uma técnica de rastreamento para visualizar essas estruturas no cólon de camundongos. Os resultados sugeriram comunicação por substâncias liberadas que se difundem até os nervos, sem uma conexão física direta entre as células examinadas.

Esse tipo de investigação ajuda a esclarecer mecanismos concretos da troca de informações. Ainda assim, demonstrar uma via de comunicação atual não resolve, por si só, a ordem em que as primeiras redes nervosas surgiram.

O que a proposta pode mudar na pesquisa

Os autores afirmam que a hipótese pode orientar investigações sobre condições que envolvem o intestino e o sistema nervoso, incluindo distúrbios digestivos, obesidade, diabetes e doença de Parkinson.

Essa possibilidade não representa uma mudança imediata de tratamento. Tampouco permite concluir que essas doenças tenham uma única origem intestinal. O interesse está nas perguntas que a perspectiva pode estimular e nos mecanismos que pesquisas futuras poderão testar.

A distinção mais importante permanece entre a evidência fisiológica e a interpretação evolutiva. A capacidade de circuitos intestinais coordenarem funções tem respaldo experimental. Já considerar essa organização o “primeiro cérebro” exige avaliar uma história evolutiva muito mais ampla.

O artigo oferece uma hipótese para esse debate. Seu valor está em incentivar a investigação de um sistema nervoso integrado, no qual o intestino participa ativamente da coordenação da vida.

 

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