Pular para o conteúdo
Tecnologia

Pesquisadores encontraram uma nova utilidade para smartphones que já foram aposentados

Milhões de smartphones são descartados todos os anos. Agora, uma iniciativa está mostrando que esses aparelhos podem esconder um valor muito maior do que se imaginava.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Todos os anos, milhões de celulares deixam de ser usados e acabam reciclados, guardados em gavetas ou simplesmente descartados. A maioria das pessoas imagina que esses aparelhos já cumpriram seu papel e que o melhor destino possível é recuperar parte dos materiais presentes em seus componentes. Mas uma nova iniciativa está questionando essa lógica. Em vez de desmontar completamente os dispositivos para extrair metais, pesquisadores decidiram fazer uma pergunta diferente: e se a parte mais valiosa do telefone ainda pudesse continuar trabalhando por muitos anos?

O componente que vale mais do que os materiais recuperados na reciclagem

O crescimento da inteligência artificial está provocando uma corrida global por infraestrutura computacional. Novos centros de dados surgem constantemente para atender à demanda crescente por processamento, armazenamento e treinamento de modelos cada vez mais sofisticados.

Esse avanço, porém, tem um custo elevado.

Além do enorme consumo energético, a fabricação de servidores exige grandes quantidades de processadores, memória RAM e componentes eletrônicos especializados. A pressão sobre as cadeias globais de fornecimento tem aumentado ano após ano.

Foi observando esse cenário que pesquisadores encontraram uma oportunidade em um lugar pouco provável: celulares antigos.

Ao analisar o processo tradicional de reciclagem, a equipe identificou um problema. Quando um smartphone é desmontado para recuperar materiais como cobre, ouro ou lítio, o componente mais complexo e ambientalmente custoso do aparelho acaba sendo destruído.

Trata-se da placa-mãe, onde estão concentrados o processador, a memória RAM e diversos controladores eletrônicos.

Em alguns modelos modernos, essa única peça representa cerca de metade de toda a pegada de carbono gerada durante a fabricação do dispositivo.

Em outras palavras, ao reciclar o telefone de maneira convencional, a indústria recupera matérias-primas valiosas, mas elimina justamente a parte que exigiu mais energia, tecnologia e recursos para ser produzida.

Foi a partir dessa constatação que surgiu uma proposta incomum: reutilizar essas placas em vez de destruí-las.

Smartphones1
© Sasirin Pamai – Shutterstock

Como centenas de celulares podem trabalhar juntos como um único servidor

Para testar a ideia, pesquisadores iniciaram um projeto piloto utilizando milhares de smartphones aposentados.

Os aparelhos são desmontados e suas placas-mãe são removidas. Em seguida, essas placas são agrupadas em conjuntos que funcionam de forma coordenada, compartilhando tarefas de processamento como acontece em um ambiente de computação distribuída.

O sistema operacional original dos celulares é substituído por uma versão adaptada do Linux, preparada para operar em aplicações típicas de servidores.

O resultado é surpreendente.

Quando dezenas dessas placas trabalham em conjunto, elas conseguem oferecer desempenho comparável ao de um servidor moderno em determinadas cargas de trabalho. Embora não substituam equipamentos de última geração em tarefas extremamente exigentes, podem ser úteis para diversas aplicações.

Processamento de dados, armazenamento distribuído, computação de borda e execução de modelos menores de inteligência artificial são alguns exemplos.

Naturalmente, existem desafios técnicos importantes. Controle térmico, comunicação entre os dispositivos e gerenciamento eficiente das cargas de trabalho são pontos que ainda estão sendo avaliados durante os testes.

Mesmo assim, os primeiros resultados indicam que existe potencial para transformar resíduos eletrônicos em infraestrutura computacional funcional.

Por que essa ideia pode ter impacto muito além da reciclagem

O aspecto mais interessante do projeto não é apenas ambiental.

A indústria de tecnologia enfrenta atualmente uma demanda crescente por chips e módulos de memória utilizados em servidores. Fabricantes trabalham próximos ao limite para atender empresas que desenvolvem soluções de inteligência artificial e computação em nuvem.

Se parte da capacidade computacional necessária puder vir de componentes já fabricados, a pressão sobre a produção de novos equipamentos pode diminuir.

A escala potencial impressiona.

Centenas de milhões de smartphones são aposentados anualmente em todo o mundo. Mesmo que apenas uma pequena parcela desses aparelhos seja reaproveitada dessa forma, o volume de hardware disponível seria gigantesco.

Ainda estamos diante de uma fase experimental, mas o conceito já demonstra uma mudança importante de mentalidade.

Em vez de enxergar celulares antigos apenas como lixo eletrônico ou fonte de matérias-primas, pesquisadores passaram a vê-los como recursos computacionais prontos para uma segunda vida.

E essa é a resposta para o título deste artigo: o destino inesperado dos smartphones aposentados pode ajudar a reduzir custos, diminuir impactos ambientais e criar uma nova fonte de capacidade computacional para uma indústria que precisa de cada vez mais processamento.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados