O rastro de uma obra desaparecida
A polícia argentina realizou nesta terça-feira (26) uma operação em uma casa de campo na cidade litorânea de Mar del Plata, após suspeitar que o valioso “Retrato de uma Dama”, do pintor barroco italiano Giuseppe Vittore Ghislandi, estivesse no local.
A pintura, datada do século XVII, teria sido roubada há mais de 80 anos de um colecionador de arte judeu por um oficial nazista que, depois da Segunda Guerra Mundial, fugiu para a Argentina.
O caso reacende um capítulo sombrio da história do país, que, sob o governo de Juan Domingo Perón (1946-1955), recebeu dezenas de membros do regime nazista. Muitos trouxeram para a América do Sul obras de arte saqueadas, ouro, joias, móveis e esculturas, alimentando até hoje um complexo processo de restituição internacional.
A descoberta do “Retrato de uma Dama”
➡️ Pintura saqueada pelos nazistas na 2ª Guerra reaparece na Argentina
A obra foi saqueada de colecionador judeu durante a Segunda Guerra e é vista em anúncios de uma casa à venda em Mar del Plata, na Argentina
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— Metrópoles (@Metropoles) August 27, 2025
A pista decisiva veio de uma reportagem do jornal holandês Algemeen Dagblad. Durante uma investigação sobre obras de arte roubadas na Segunda Guerra Mundial, repórteres encontraram, em um anúncio imobiliário online, imagens que mostravam o quadro pendurado na parede de uma sala de estar.
A propriedade, um chalé rústico de tijolos com vista para o mar, seria pertencente aos descendentes do ex-oficial nazista Friedrich Kadgien. As fotos foram publicadas pela imobiliária Robles Casas & Campos e, inicialmente, incluíam até um tour virtual em 3D. No entanto, após a divulgação da reportagem, a imagem do quadro foi retirada do anúncio — que, no entanto, seguia ativo até terça-feira à noite.
No dia seguinte, a polícia argentina realizou o mandado de busca no imóvel.
Operação policial e apreensões
De acordo com o procurador federal Carlos Martínez, a pintura não foi encontrada no local. No entanto, os investigadores apreenderam armas, gravuras, impressões antigas e reproduções de época que podem ajudar a reconstruir o caminho do patrimônio saqueado.
O caso levanta suspeitas de encobrimento e contrabando e pode envolver descendentes diretos do antigo oficial nazista.
A trilha de Friedrich Kadgien
Binnenkort – 16 april a.s. – is het 80 jaar geleden dat Amsterdamse diamanthandelaren hun bezit moesten overdragen aan de Weledele Heer Friedrich Kadgien, de rechterhand van Hermann Göring… https://t.co/d4dd8dSPIj pic.twitter.com/YBRWJL7vYE
— John Brouwer de Koning (@BkingJohn) March 9, 2022
De acordo com os arquivos oficiais holandeses, o “Retrato de uma Dama” teria passado para as mãos de Friedrich Gustav Kadgien, membro do Partido Nazista registrado sob o número 1.354.543. Kadgien era assistente financeiro de Hermann Goering, o braço direito de Adolf Hitler, e supervisionava a venda de propriedades confiscadas, metais preciosos e divisas estrangeiras.
Após a derrota da Alemanha nazista, Kadgien fugiu para a Suíça e, em seguida, para a Argentina, segundo documentos desclassificados da CIA. Registros judiciais mostram que ele e seus familiares se estabeleceram no país na década de 1950 e construíram negócios na região.
Kadgien nunca foi acusado formalmente por crimes relacionados ao regime nazista e morreu em Buenos Aires em 1978.
A disputa pela restituição
A base de dados oficial de arte desaparecida da Agência do Patrimônio Cultural dos Países Baixos confirma que a obra pertencia originalmente ao comerciante judeu Jacques Goudstikker, dono de uma renomada galeria em Amsterdã. Durante a ocupação nazista dos Países Baixos em 1940, centenas de obras foram saqueadas ou vendidas sob coerção.
Em 2006, após uma batalha judicial histórica, 202 obras da coleção Goudstikker foram devolvidas à sua única herdeira, Marei von Saher, que há décadas busca a restituição de peças ainda desaparecidas — incluindo o “Retrato de uma Dama”.
[ Fonte: DW ]