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Polícia Federal expande rastreamento de ouro ilegal da Amazônia

O ouro da Amazônia agora tem “DNA”. A Polícia Federal desenvolveu uma técnica capaz de identificar se o metal vem de garimpos ilegais e já começou a expandir o programa para além das fronteiras brasileiras. O objetivo é combater quadrilhas que tentam driblar a fiscalização, levando o ouro para países vizinhos antes de colocá-lo no mercado.
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A tecnologia cataloga a assinatura morfológica única do metal — apelidada de “DNA do ouro” —, permitindo ligar cada amostra apreendida a uma área específica da floresta degradada pelo garimpo. Em 2023, o Brasil já teve seu primeiro caso judicial baseado nessa técnica, mas a PF alerta que o crime se sofisticou: grupos levam o ouro para fundições em outros países, dificultando o rastreamento.

“Quando tivermos amostras de todas as áreas produtoras de ouro da Pan-Amazônia, poderemos identificar cientificamente a origem de cada lote apreendido”, explicou Humberto Freire, chefe do Departamento Amazônia e Meio Ambiente da Polícia Federal.

Expansão internacional e acordos inéditos

A cooperação internacional é peça-chave. Acordos firmados entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Emmanuel Macron já permitem a troca de amostras entre Brasil e Guiana Francesa. Em agosto, Freire se reuniu com o ministro da Defesa da Colômbia, Pedro Sánchez, para discutir a adoção da técnica também naquele país.

Na Colômbia, o garimpo ilegal serve muitas vezes para lavar dinheiro do narcotráfico, e autoridades temem que a prática se espalhe pela região. A polícia colombiana confirmou que cada vez mais brasileiros são encontrados atuando em minas clandestinas próximas à fronteira. Dois funcionários do Ministério da Defesa do país disseram à Reuters que há interesse em replicar o modelo brasileiro para criar um banco próprio de “DNA do ouro”.

Interpol adota modelo brasileiro

A iniciativa da Polícia Federal inspirou a Interpol a criar o Projeto Gaia, financiado pelo governo alemão, para treinar policiais de diversos países no rastreamento de ouro. O secretário-geral da organização, Valdecy Urquiza — ele mesmo delegado da PF —, defendeu que mapear regiões produtoras é essencial para investigações eficazes contra o garimpo ilegal.

Mudança de rota no contrabando

O endurecimento das operações na Amazônia sob o governo Lula forçou os criminosos a mudar de estratégia. Se antes o ouro entrava no Brasil vindo da Venezuela, agora é o contrário: contrabandistas tentam levar o metal brasileiro para fora, principalmente para ser fundido em território venezuelano.

Medidas como a decisão do Supremo Tribunal Federal, que obriga fundições a verificar a origem do ouro, também dificultaram a entrada de minério ilegal no mercado formal. Os números confirmam o efeito: em 2023, a PF apreendeu 308 kg de ouro; no ano passado, a cifra despencou para 80 kg. Mas só entre janeiro e agosto deste ano, já foram apreendidos 253 kg, metade deles a caminho de fundições venezuelanas.

Cooperação regional ganha força

A escalada do crime ambiental levou os governos da região a ampliar a cooperação. Neste mês, Lula, ao lado do presidente colombiano Gustavo Petro e de outras autoridades, inaugurou em Manaus o Centro Internacional de Cooperação Policial da Amazônia. A estrutura, anunciada em 2023, vai facilitar o intercâmbio de informações entre países amazônicos, com foco especial em crimes ambientais.

O avanço do rastreamento do ouro mostra como a ciência pode ser usada contra crimes ambientais. Mas também revela o tamanho do desafio: com o preço do ouro em alta e quadrilhas cada vez mais organizadas, a corrida para proteger a Amazônia é, mais do que nunca, uma disputa global.

[Fonte: Reuters]

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