A tradição se manteve: mais uma vez o Brasil foi o primeiro país a discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU. Mas, neste ano, Lula aproveitou os holofotes globais para dar recados diretos e indiretos a potências como Estados Unidos e Israel. O tom duro chamou atenção da imprensa internacional e expôs a crescente tensão diplomática em torno do julgamento e condenação de Jair Bolsonaro e da guerra em Gaza.
Lula e a defesa da democracia no Brasil
O jornal britânico The Guardian destacou que Lula fez uma defesa “apaixonada” da democracia brasileira, lembrando a condenação de Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentar dar um golpe após perder as eleições de 2022. Para o veículo, o recado foi claro: mostrar que “aspirantes a autocratas” podem ser derrotados.
Já a agência Reuters reforçou que Lula defendeu o devido processo legal que levou à condenação de Bolsonaro, ao mesmo tempo em que criticou sanções, tarifas e restrições impostas pelos EUA como tentativa de pressionar o Brasil.
O atrito com os Estados Unidos
O New York Times publicou que Donald Trump, após o discurso de Lula, tentou adotar um tom mais conciliador, sinalizando até uma reunião com o presidente brasileiro. Mas o jornal lembrou que a fala de Lula foi “mordaz”, mirando indiretamente o líder americano e sua defesa de Bolsonaro.
A Bloomberg foi além, classificando o discurso como uma “provocação” a Trump e apontando que o embate sobre Bolsonaro pode escalar a crise diplomática entre Brasília e Washington.
Críticas à comunidade internacional e menção a Gaza
O portal argentino Infobae destacou que Lula alertou para a ameaça às Nações Unidas diante do avanço de “forças antidemocráticas”, mencionando sanções arbitrárias e intervenções unilaterais.
Já a emissora alemã Deutsche Welle comparou o discurso de 2025 com os anteriores, notando que, desta vez, Lula focou em críticas diretas aos EUA e a Israel. O país do Oriente Médio declarou Lula persona non grata após as acusações brasileiras de genocídio em Gaza.
A agência turca Anadolu chamou o discurso de “contundente”, enfatizando quando Lula afirmou que “dezenas de milhares de crianças palestinas estão soterradas sob os escombros em Gaza”, o que, segundo ele, também destrói o direito internacional.
O papel do Brasil no cenário internacional
Mais do que uma fala simbólica, o discurso de Lula reflete a tentativa do Brasil de se afirmar como voz ativa no debate global. Ao confrontar potências e defender causas sensíveis, o presidente busca reposicionar o país como ator de peso no multilateralismo.
Ao mesmo tempo, porém, o tom usado pode aumentar o isolamento em frentes estratégicas, especialmente diante do atrito simultâneo com Washington e Tel Aviv.
O discurso de Lula na ONU mostrou que o Brasil não pretende se esquivar dos debates mais tensos da política internacional. Mas também deixou no ar um alerta: até que ponto essa postura firme pode fortalecer a imagem do país — ou gerar ainda mais choques diplomáticos em um cenário já marcado por instabilidade?
[Fonte: Veja]