Sabemos que nossos pais, amigos e todas as pessoas ao nosso redor vão morrer algum dia. Também entendemos racionalmente que estamos submetidos exatamente à mesma regra. Mesmo assim, planejamos viagens para o próximo ano, financiamos imóveis por décadas e imaginamos tranquilamente nossa vida no futuro. Essa aparente contradição pode esconder algo fascinante: talvez nosso cérebro tenha maneiras de impedir que a consciência da própria morte domine nossa vida cotidiana.
Quando o cérebro encontra as ideias de “eu” e “morte”, algo diferente acontece
Para o biólogo molecular e vencedor do Nobel de Química Venki Ramakrishnan, nossa capacidade de afastar a própria mortalidade do pensamento cotidiano pode funcionar como uma espécie de proteção psicológica.
Em seu livro Why We Die, dedicado ao envelhecimento, à longevidade e à busca humana por prolongar a vida, Ramakrishnan argumenta que conseguimos compreender intelectualmente a morte enquanto, na prática, tendemos a tratá-la como algo que acontece principalmente com os outros.
A ideia parece filosófica, mas um experimento publicado na NeuroImage em 2019 encontrou um resultado compatível com essa possibilidade.
Pesquisadores utilizaram magnetoencefalografia para acompanhar a atividade cerebral de participantes que observavam rostos — incluindo o próprio — associados a palavras relacionadas à morte.
Normalmente, o cérebro produz determinadas respostas quando aquilo que vemos não corresponde ao que esperávamos. Mas esse padrão se modificava quando o próprio rosto aparecia associado a conceitos ligados à morte.
Os pesquisadores interpretaram o resultado como indício de um possível mecanismo preditivo capaz de distanciar psicologicamente a mortalidade do “eu”. Diante desses estímulos, o cérebro parecia favorecer uma associação da morte com “o outro”.
Isso não significa que exista um circuito cuja função seja nos convencer de que somos imortais. Um dos experimentos contou com apenas 24 participantes, e os próprios autores apresentam o mecanismo como uma possibilidade, não como explicação definitiva.

Saber que vamos morrer criou um problema incomum para nossa espécie
Ramakrishnan parte de uma característica extraordinária dos seres humanos.
Não apenas reconhecemos a morte quando ela acontece. Somos capazes de imaginar que, inevitavelmente, ela também acontecerá conosco em algum momento futuro.
Outros animais demonstram reações diante de indivíduos mortos e algumas espécies apresentam comportamentos associados ao luto. Mas a capacidade humana de antecipar conscientemente a própria mortalidade parece ocupar uma dimensão particularmente sofisticada.
Essa percepção deixou marcas profundas em religiões, rituais funerários, filosofia, arte e praticamente toda a história cultural da humanidade.
Mas também cria um problema.
Se estivéssemos permanentemente conscientes de que qualquer plano pode ser interrompido pela morte, viver poderia se transformar em um exercício constante de ansiedade.
Uma solução psicológica possível seria conhecer perfeitamente a regra, mas impedir que ela seja sentida a todo momento como uma ameaça pessoal e imediata.
Isso ajudaria a entender por que conseguimos plantar uma árvore que levará décadas para crescer, assumir compromissos de longo prazo ou simplesmente decidir onde passaremos as próximas férias.
Passamos a vida evitando algo que também tentamos esquecer
Existe ainda uma ironia nessa história.
Ramakrishnan conhece profundamente os mecanismos biológicos envolvidos no funcionamento das células. Em 2009, recebeu o Nobel de Química ao lado de Thomas Steitz e Ada Yonath por pesquisas sobre a estrutura e função dos ribossomos, responsáveis pela produção de proteínas.
Décadas depois, passou a discutir amplamente o envelhecimento e os esforços científicos para prolongar a vida.
Sua visão não envolve a existência de um relógio biológico programado especificamente para nos matar. O envelhecimento está ligado, entre outros processos, ao acúmulo de danos e à deterioração progressiva dos mecanismos celulares responsáveis por manutenção, reparo e controle.
E é aí que surge uma contradição tipicamente humana.
Investimos enormes recursos tentando adiar a morte. Ao mesmo tempo, talvez dependamos de mecanismos psicológicos que nos permitam não pensar nela continuamente.
Ainda é cedo para afirmar que exista uma defesa cerebral específica responsável por esse fenômeno. Mas a hipótese oferece uma explicação intrigante para algo que fazemos todos os dias.
Sabemos perfeitamente que somos mortais. Só não vivemos cada minuto como se essa informação estivesse no centro da nossa consciência.
Talvez isso não seja uma falha de percepção. Pode ser justamente o que nos permite acordar amanhã e continuar fazendo planos para daqui a dez anos.