Prender a respiração por um minuto já parece um desafio para a maioria das pessoas. Ainda assim, alguns atletas conseguem permanecer mais de dez minutos sem respirar, enquanto um recorde impressionante ultrapassa os 29 minutos. À primeira vista, esses números parecem contrariar a biologia humana. No entanto, pesquisadores explicam que o segredo não está apenas na quantidade de oxigênio disponível, mas na forma como o cérebro interpreta os sinais enviados pelo próprio organismo.
Nem todos os recordes de apneia significam a mesma coisa

O número que mais costuma chamar atenção é o recorde de 29 minutos e 3 segundos registrado pelo mergulhador croata Vitomir Maričić em junho de 2025.
Embora seja um resultado oficial reconhecido pelo Guinness World Records, ele foi obtido em uma categoria específica chamada apneia estática com auxílio de oxigênio.
Nessa modalidade, o atleta pode respirar oxigênio puro antes do início da tentativa. Esse procedimento aumenta significativamente a quantidade de oxigênio armazenada no organismo e reduz temporariamente o acúmulo de dióxido de carbono, retardando a sensação de falta de ar.
Já a modalidade tradicional das competições de mergulho livre segue regras completamente diferentes.
Organizada pela AIDA International, ela não permite o uso de oxigênio suplementar antes da prova.
Nesse caso, o recorde masculino permanece com o francês Stéphane Mifsud, que alcançou 11 minutos e 35 segundos respirando apenas ar ambiente. Entre as mulheres, a alemã Heike Schwerdtner detém o recorde atual, com 9 minutos e 39 segundos.
Embora os números sejam menores, especialistas consideram que esses resultados representam um desafio fisiológico muito diferente, pois dependem exclusivamente do treinamento e da adaptação do organismo.
O corpo quer respirar antes mesmo de faltar oxigênio

Muitas pessoas acreditam que a necessidade de respirar surge porque o corpo fica sem oxigênio.
Na realidade, esse impulso é provocado principalmente pelo aumento da concentração de dióxido de carbono no sangue.
Receptores especializados detectam essa elevação e enviam ao cérebro um sinal cada vez mais intenso para inspirar novamente.
Segundo fisiologistas, os pulmões ainda contêm oxigênio suficiente quando essa sensação aparece pela primeira vez.
Ou seja, a vontade de respirar funciona como um mecanismo preventivo criado para proteger o organismo muito antes que a situação se torne realmente crítica.
Esse detalhe explica por que a maioria das pessoas interrompe voluntariamente uma apneia entre 30 e 90 segundos, apesar de o corpo ainda possuir reservas de oxigênio.
Também ajuda a entender por que algumas práticas consideradas perigosas, como a hiperventilação antes de prender a respiração, podem aumentar significativamente o risco de perda de consciência.
Ao reduzir artificialmente os níveis de dióxido de carbono, esse procedimento atrasa o aviso do cérebro sem aumentar de forma relevante a quantidade de oxigênio disponível, criando uma falsa sensação de segurança.
Por esse motivo, organizações internacionais de mergulho livre recomendam que exercícios de apneia nunca sejam realizados sem supervisão adequada.
O treinamento muda mais a mente do que os pulmões
Os atletas de mergulho livre não treinam apenas a capacidade pulmonar.
Grande parte do desempenho depende da habilidade de permanecer calmo enquanto o organismo envia sinais cada vez mais intensos para respirar.
Com o tempo, os mergulhadores aprendem a conviver com essas sensações sem interpretá-las imediatamente como uma emergência.
Esse processo exige treinamento gradual, repetição e acompanhamento especializado.
Além disso, o corpo também apresenta adaptações fisiológicas conhecidas como reflexo de mergulho dos mamíferos.
Durante a submersão, ocorre redução da frequência cardíaca e redistribuição do fluxo sanguíneo para órgãos essenciais, como cérebro e coração.
Pesquisas com mergulhadores tradicionais da Coreia do Sul e do Japão mostram que essas respostas podem tornar-se mais eficientes após anos de prática.
Ainda assim, especialistas ressaltam que o principal diferencial continua sendo a capacidade de controlar o desconforto psicológico provocado pelo aumento do dióxido de carbono.
Os recordes revelam mais sobre os mecanismos do corpo do que sobre força de vontade
A enorme diferença entre os cerca de 90 segundos alcançados pela maioria das pessoas e os mais de 11 minutos registrados por atletas de elite não significa que qualquer indivíduo possa atingir esse desempenho apenas insistindo por mais tempo.
Ela demonstra que os limites impostos pelo organismo podem ser modificados lentamente por meio de treinamento específico, sempre realizado em condições controladas e com acompanhamento adequado.
Os recordes obtidos com oxigênio suplementar representam outra realidade completamente diferente, pois alteram as condições fisiológicas antes mesmo do início da tentativa.
Por isso, os próprios regulamentos esportivos tratam essas categorias de forma separada.
Mais do que revelar um feito extraordinário, esses números ajudam os cientistas a compreender melhor como o cérebro administra sinais de proteção e como o corpo responde a situações extremas.
A pesquisa sobre mergulho livre continua mostrando que nossos limites biológicos são mais complexos do que parecem, mas também reforça que compreender esses mecanismos é muito diferente de tentar ultrapassá-los sem preparo. Quando o assunto é apneia, conhecimento científico e segurança caminham obrigatoriamente lado a lado.
[Fonte: Space daily]