A vida onde falta ar
Para quem escala montanhas, a falta de fôlego é um desafio passageiro. Mas em La Rinconada, no Peru, esse esforço constante é a rotina diária. A cidade é considerada a localidade permanente mais alta do mundo, situada a 5.100 metros acima do nível do mar — mais perto do espaço do que qualquer outro povoado da Terra.
Nessa altitude extrema, o ar contém apenas metade do oxigênio disponível ao nível do mar. O corpo humano responde produzindo quase o dobro de glóbulos vermelhos e hemoglobina, uma adaptação que ajuda a transportar oxigênio, mas que também aumenta os riscos de doenças cardiovasculares e sangue mais viscoso. A consequência é dura: a esperança de vida raramente ultrapassa os 35 anos.
A “cidade sem lei” do ouro
La Rinconada is a town of 17,000 in the Peruvian Andes. It is the highest inhabited settlement on Earth. It sits 4,100 meters (16,700 ft.) above sea level. It quickly grew from a small camp to a bustling town because of its proximity to gold mines pic.twitter.com/6uYg5eg1fD
— Fascinating (@fasc1nate) June 6, 2024
Apesar das condições extremas, cerca de 50 mil pessoas vivem em La Rinconada. O motivo é simples: ouro.
A mineração aurífera domina a região e atrai trabalhadores de todo o país em busca da sorte. Mas o que encontram está longe de ser prosperidade. O povoado é chamado de “a cidade sem lei do Peru”, marcado por ausência de saneamento, moradias improvisadas, infraestrutura precária e violência cotidiana.
O sistema de trabalho local é conhecido como “cachorreo”: os mineiros passam um mês inteiro sem salário, apenas pela promessa de um único dia em que podem ficar com todo o ouro que encontrarem. Poucos conseguem enriquecer — muitos adoecem pela inalação de gases tóxicos ou morrem em desabamentos.
Violência, miséria e precariedade
A falta de bancos obriga trabalhadores a carregar ouro e dinheiro nos bolsos, transformando-os em alvos de roubos, agressões e extorsões. As ruas estão cheias de lixo e esgoto a céu aberto, o que gera um odor permanente ao qual os moradores acabam se acostumando.
Sem planejamento urbano, La Rinconada cresce como um labirinto de casas improvisadas, becos e minas desordenadas, onde o poder circula em torno do metal precioso e da lei do mais forte.
Estratégias para suportar a montanha
Para aliviar o mal da altitude, os moradores recorrem a soluções tradicionais, como mastigar folhas de coca ou tomar infusões de ervas conhecidas como emolientes. Mas esses paliativos não eliminam os sintomas da hipoxia: falta de ar, tonturas, náuseas e dores de cabeça persistentes.
A vida em La Rinconada significa conviver diariamente com a sensação de sufocamento, na esperança de que uma nova veia de ouro possa mudar o destino. Mas enquanto a riqueza da montanha continuar sendo explorada sem infraestrutura, saúde ou políticas públicas, ela seguirá oferecendo fortuna para poucos e cobrando vidas de muitos.
La Rinconada, nos Andes peruanos, é a cidade habitada mais alta do planeta: vive com metade do oxigênio do nível do mar, expectativa de vida baixa e condições precárias. Atraídos pelo ouro, 50 mil moradores enfrentam violência, doenças e miséria em uma rotina onde a montanha recompensa, mas também cobra caro.
[ Fonte: Huffpost ]