O Superman está de volta às telonas com um novo filme que resgata elementos clássicos de sua história, mas reacende velhas tensões culturais. O diretor James Gunn declarou que o herói é, essencialmente, um imigrante — o que bastou para que críticos conservadores o rotulassem de “Superwoke”. Mas afinal, o que está por trás dessa polêmica?
O herói que veio de outro mundo — literalmente
Desde sua criação em 1938, o Superman é retratado como um bebê vindo de um planeta destruído que encontra abrigo em uma fazenda no Kansas. Para o diretor James Gunn, isso representa algo essencialmente americano: “Superman é a história dos Estados Unidos. Um imigrante vindo de longe, acolhido e integrado. Mas acima de tudo, é uma história sobre a bondade humana”, afirmou ele ao jornal The Times de Londres.
Essa declaração, em meio a um clima político tenso nos EUA, especialmente em relação à imigração, desencadeou críticas. A Fox News classificou o filme como “Superwoke”, e figuras como a ex-conselheira de Trump, Kellyanne Conway, acusaram Gunn de tentar doutrinar o público.
Uma origem que sempre foi política — e pessoal

A associação do Superman com a imigração não é invenção recente. Especialistas apontam que essa ideia está enraizada na própria criação do personagem. Danny Fingeroth, autor e estudioso de quadrinhos, destaca: “Superman é um refugiado. Ele não veio por escolha, mas por necessidade — e ainda assim, representa o ideal americano”.
Seus criadores, Jerry Siegel e Joe Shuster, eram filhos de imigrantes judeus que fugiram do antissemitismo na Europa. Nos primeiros quadrinhos, o herói enfrentava corruptos, defendia oprimidos e até lutava contra nazistas antes mesmo dos EUA entrarem na Segunda Guerra.
A resistência conservadora e a permanência do mito
Apesar do sucesso nas bilheterias — o filme arrecadou US$ 122 milhões no fim de semana de estreia — o discurso de Gunn incomodou comentaristas conservadores como Dean Cain, ex-intérprete do herói, que criticou a menção à imigração na divulgação do filme.
No entanto, historiadores lembram que essa perspectiva sempre esteve presente, mesmo que nem todas as versões a explorem explicitamente. Em algumas narrativas, Superman é apenas o rapaz de Metrópolis ou do Kansas, adaptado conforme os tempos e os criadores.
Um símbolo para todos — e por isso, tão disputado
A força do Superman está justamente em sua versatilidade. “Seus mitos e histórias falam de aspectos profundos da experiência humana”, explica Fingeroth. Essa capacidade de representar tanto um imigrante quanto um herói americano tradicional torna o personagem um espelho onde muitos se veem — o que também o torna alvo de disputas ideológicas.
Essa identificação já foi celebrada em campanhas como #SupermanIsAnImmigrant, lançada em 2013 por ativistas como Jose Antonio Vargas, que reforçam o valor simbólico do personagem para a causa dos imigrantes.
Afinal, quem é o Superman hoje?
Gunn afirma que sua intenção não é reinventar o herói, mas resgatar uma parte fundamental de sua essência. E, segundo os criadores da campanha de 2013, isso não é “politizar”, mas reconhecer a verdade.
Vargas observa que o filme abriu espaço para conversas que antes não aconteciam: “Pessoas que nunca falaram sobre imigração estão falando agora. A questão é: o que vamos fazer com essa atenção?”
No fim das contas, o Superman continua sendo um reflexo dos tempos — seja como um símbolo de justiça social, um emblema do sonho americano ou um herói de capa que salva o dia. E talvez, justamente por isso, ele nunca deixará de causar impacto.
[ Fonte: CNN Brasil ]