Embora muitas vezes considerados “mais fortes”, os homens estão em maior risco quando se trata de saúde. Uma nova revisão global aponta que eles adoecem mais, morrem mais cedo e têm menos acesso ou disposição para buscar cuidados médicos. E o que explica esse fenômeno não são apenas diferenças biológicas, mas um conjunto de padrões sociais e culturais que os afastam da prevenção e do autocuidado.
Um panorama preocupante em escala global
Publicado em maio na revista PLOS Medicine, o estudo da Universidade do Sul da Dinamarca analisou dados de mais de 200 países e apontou um padrão claro: os homens enfrentam taxas mais altas de doenças como hipertensão, diabetes e HIV/Aids, além de apresentarem menor expectativa de vida.
A explicação vai além de fatores genéticos. O estudo destaca normas de gênero, comportamentos de risco e uma cultura que associa adoecer à fraqueza. Isso leva muitos homens a evitarem exames, minimizarem sintomas e negligenciarem o acompanhamento médico.
No Brasil, os números confirmam a tendência

Dados do IBGE mostram que, em 2023, a expectativa de vida dos homens brasileiros era de 73,1 anos, quase sete anos a menos que a das mulheres (79,7 anos). Além disso, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, apenas 69,4% dos homens haviam ido ao médico no ano anterior, contra 82,3% das mulheres.
Essa resistência se traduz em diagnósticos tardios, menor adesão a tratamentos contínuos e maior incidência de complicações fatais como infartos e AVCs. Segundo o Ministério da Saúde, 70,7% dos casos de HIV no país entre 2007 e 2024 ocorreram em homens.
A origem do problema: machismo, medo e desinformação
Para o médico de família e comunidade Wilands Patrício Procópio Gomes, do Hospital Israelita Albert Einstein, o problema começa na construção social do que é “ser homem”. “Existe a ideia de que sentir dor ou adoecer é sinal de fraqueza. Isso, somado ao desconhecimento sobre o próprio corpo e ao medo de diagnósticos, afasta muitos homens da prevenção”, afirma.
Gomes observa que, na prática clínica, muitos homens só buscam atendimento em casos de urgência, como dores intensas ou lesões. O estigma em torno de exames, como o de toque retal, também contribui para o afastamento do sistema de saúde.
Estratégias para atrair e cuidar da saúde masculina
Segundo Gomes, a solução passa pela atenção primária: “É a porta de entrada para o SUS. É preciso adaptar o atendimento, criar vínculos e oferecer ações educativas e de rastreamento voltadas ao público masculino.”
Ele destaca medidas eficazes, como o aumento do horário de funcionamento das unidades básicas de saúde, campanhas de conscientização realizadas fora dos consultórios (em praças, bares e locais de convivência masculina), e atendimentos coletivos para aproximar o sistema de saúde dos homens.
Políticas públicas e campanhas que fazem diferença
Desde 2008, o Brasil conta com a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), que busca combater os fatores culturais e sociais que impedem o cuidado masculino. A iniciativa promove ações específicas para homens entre 20 e 59 anos, faixa etária mais resistente à prevenção.
Outro exemplo é o Novembro Azul, campanha criada em 2011 para alertar sobre o câncer de próstata, mas que hoje aborda também saúde mental, tabagismo e doenças cardiovasculares.
Uma mudança que exige mais que boa vontade
Para que essas ações tenham impacto real, é preciso mais do que campanhas isoladas. “Todos os profissionais da atenção primária devem conhecer os protocolos de rastreamento e tratamento da saúde do homem, criando vínculos e oferecendo um cuidado qualificado”, reforça Gomes.
A mudança está em curso — mas ainda é tímida diante do tamanho do desafio. Tornar o cuidado com os homens mais acessível, acolhedor e eficiente é uma questão de saúde pública. Afinal, por trás das estatísticas, há vidas que podem ser salvas com informação, empatia e ação.
[ Fonte: CNN Brasil ]