Desde que as sanções contra Moscou se intensificaram, a Rússia busca formas de escapar do alcance financeiro do Ocidente. Agora, o país volta a levantar uma proposta ambiciosa: um sistema de liquidação internacional baseado em ouro, operado pelo BRICS. A iniciativa desafia a hegemonia do dólar e coloca a geopolítica em alerta máximo.
A proposta de Moscou para um sistema blindado
A ideia defendida por autoridades ligadas ao Kremlin prevê a criação de um “BRICS Pay” sustentado em ouro físico. Esse mecanismo funcionaria por meio de uma moeda digital multilateral, emitida por um banco de compensação do bloco, cujo valor seria sempre fixado em ouro armazenado de forma descentralizada pelos países participantes.
Segundo Sergey Glazyev, economista da União Econômica da Eurásia, essa estratégia garantiria transações imunes a bloqueios políticos e à volatilidade cambial. Em suas palavras: “o ouro é a única moeda internacional que não pode ser controlada por governos estrangeiros”. O objetivo central é criar um escudo contra sanções e ampliar a autonomia dos países emergentes.
Por que os EUA veem risco nesse movimento
O dólar é, atualmente, a espinha dorsal da economia global: responde por cerca de 58% das reservas internacionais e participa de mais de 80% das transações cambiais. Qualquer tentativa de criar um sistema paralelo, mesmo que limitado, ameaça essa hegemonia.
Para Washington, a consolidação de um mecanismo alternativo lastreado em ouro significaria perder parte de sua capacidade de pressão diplomática. Além de favorecer países sob sanções, como Rússia e Irã, abriria espaço para aliados estratégicos como a China ampliarem sua influência no comércio internacional.
Os desafios de transformar o plano em realidade
Apesar do potencial disruptivo, o projeto enfrenta obstáculos significativos. O BRICS é um grupo heterogêneo, com interesses divergentes. Enquanto Rússia e China lideram a estratégia de desdolarização, Brasil e Índia mantêm relações estreitas com Washington e podem hesitar em se alinhar totalmente.
Outro entrave é o volume de ouro disponível: juntos, os membros do BRICS somam cerca de 6.500 toneladas, número expressivo, mas insuficiente para sustentar um sistema trilionário em escala global. A viabilidade técnica e política da iniciativa ainda está em aberto.
O impacto direto para o Brasil
Para o Brasil, uma eventual adesão poderia reduzir custos de exportação e diminuir a dependência do dólar nas transações com Ásia e África. Mas especialistas alertam: isso exigiria ajustes profundos na política cambial, além de potencial exposição a pressões diplomáticas americanas, que poderiam comprometer investimentos e acordos estratégicos.
Assim, a decisão não é apenas econômica, mas também geopolítica. Estar no centro desse rearranjo pode trazer benefícios, mas também riscos difíceis de calcular.
Um retorno ao ouro em plena era digital
A história mostra que o ouro já foi o pilar do sistema financeiro, até o fim do acordo de Bretton Woods, em 1971. Desde então, a confiança no dólar substituiu o metal como referência. A retomada dessa ideia no século XXI ganha novo contorno com tecnologias como blockchain e moedas digitais de bancos centrais, que poderiam sustentar esse modelo com maior transparência e agilidade.
Caso avance, a iniciativa russa não derrubaria o dólar de imediato, mas poderia inaugurar uma ordem financeira fragmentada, com diferentes sistemas convivendo em paralelo. E esse seria um passo decisivo rumo a um mundo onde a hegemonia monetária dos EUA estaria, pela primeira vez em décadas, seriamente ameaçada.
[Fonte: O cafezinho]