Pular para o conteúdo
Ciência

Primeiro transplante de pulmão de porco em humano: um marco histórico para a medicina

A ciência acaba de dar um passo revolucionário. Pela primeira vez na história, cirurgiões na China realizaram com sucesso o transplante de um pulmão de porco geneticamente modificado para um receptor humano. Embora o procedimento tenha sido feito em um paciente em morte cerebral — para evitar riscos a um indivíduo vivo —, o resultado abre caminho para uma nova era nos transplantes e pode mudar para sempre o futuro da medicina.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Um experimento pioneiro e controlado

A cirurgia foi realizada em 15 de maio de 2024 no Primeiro Hospital Afiliado da Universidade Médica de Guangzhou, na China. O receptor foi um homem de 39 anos em morte cerebral, o que permitiu aos cientistas testar a viabilidade do órgão sem colocar vidas em risco.

Durante nove dias de acompanhamento, os resultados surpreenderam:

  • Nos três primeiros dias, não houve sinais de rejeição aguda;

  • A partir do quarto dia, surgiram sinais de inchaço no pulmão e danos no tecido por falta de oxigênio;

  • No sexto dia, foi detectado rejeição mediada por anticorpos;

  • No nono dia, os danos começaram a regredir, mas o estudo foi interrompido a pedido da família.

Apesar das limitações, os dados foram publicados na revista Nature Medicine e confirmam: o transplante de pulmão entre espécies é possível.

Por que o transplante de pulmão é tão complexo

Pulmon
© Robina Weermeijer – Unsplash

Os pulmões estão entre os órgãos mais desafiadores para transplante, principalmente no contexto de xenotransplantes (entre espécies). Como explica Muhammad Mohiuddin, da Universidade de Maryland, líder do primeiro transplante de coração de porco para um humano vivo:

“Os pulmões possuem a maior quantidade de vasos sanguíneos de qualquer órgão transplantável.”

Isso os torna altamente expostos ao sistema imunológico, aumentando o risco de rejeição imediata. Além disso, os pulmões estão em contato direto com o ambiente externo, o que os coloca em risco constante de alérgenos, vírus e bactérias.

Para efeito de comparação:

  • Um rim humano transplantado pode durar 12 a 14 anos;

  • Um pulmão humano transplantado geralmente sobrevive apenas 5 a 7 anos.

A engenharia genética por trás do sucesso

O segredo para reduzir o risco de rejeição foi o uso de um pulmão de porco com seis modificações genéticas:

  • Três genes porcinos foram eliminados para evitar que o sistema imunológico humano identificasse o órgão como invasor;

  • Três genes humanos foram inseridos para proteger o órgão contra ataques imunológicos e reduzir a formação de coágulos sanguíneos.

Essa combinação genética inovadora representa um avanço gigantesco na busca por órgãos compatíveis e pode abrir caminho para um futuro com filas de transplante muito menores.

Críticas e desafios

Apesar do marco, o experimento gerou debate na comunidade científica. O principal motivo: os cirurgiões transplantaram apenas o pulmão esquerdo, deixando o direito — humano e funcional — no receptor.

Segundo o Dr. Richard N. Pierson, da Faculdade de Medicina de Harvard:

“Foi uma oportunidade perdida. Não sabemos se o pulmão porcino conseguiria sustentar a vida sozinho.”

Ainda assim, especialistas concordam que este é um primeiro passo essencial e que mais pesquisas são necessárias para aperfeiçoar a preservação dos órgãos e refinar as edições genéticas.

Um movimento global pela medicina do futuro

O experimento faz parte de uma corrida científica internacional para viabilizar os xenotransplantes. Nos Estados Unidos, a FDA já autorizou ensaios clínicos com rins e fígados de porco desenvolvidos por empresas como eGenesis e United Therapeutics.

Em janeiro de 2025, um homem passou a viver com um rim de porco, estabelecendo o recorde de sobrevivência com órgãos de origem animal. O próximo passo será testar os transplantes de pulmão em pacientes terminais, para quem já não há alternativas médicas disponíveis.

O início de uma revolução médica

Se os resultados forem confirmados em estudos clínicos, a técnica pode reduzir drasticamente a fila de transplantes e salvar milhares de vidas todos os anos.

Mais do que um experimento, este marco representa o começo de uma nova era na medicina regenerativa e no desenvolvimento de órgãos sob medida para cada paciente.

 

[ Fonte: Xataka ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados