Uma boa onda depende de uma combinação de condições: a ondulação que chega do oceano, a profundidade da água, o formato do fundo e a dinâmica da costa. Quando esse equilíbrio muda, um pico de surfe pode perder qualidade ou funcionar com menos frequência. Um estudo internacional avaliou essa vulnerabilidade em 57 pontos e encontrou proporções elevadas de risco em diferentes aspectos.
O resultado mais chamativo envolve a capacidade de adaptação da linha de costa: 89% dos picos avaliados receberam classificação de risco médio ou alto nesse quesito. Isso não significa que quase todas as ondas do planeta vão desaparecer. O percentual se refere a um fator específico e aos locais selecionados pela pesquisa.
O que os pesquisadores avaliaram?

O trabalho publicado na revista Climatic Change analisou picos ligados a Reservas Mundiais de Surfe, escolhidos por sua relevância ambiental, cultural e histórica.
As avaliações utilizaram o SurfCAT, ferramenta que considera sensibilidade ao nível da água, transporte de sedimentos, capacidade de adaptação da costa, condições de chegada das ondulações e presença do surfe nos planos de adaptação.
Além dos 89% relacionados à resiliência costeira, 79% dos pontos apresentaram risco médio ou alto associado à elevação do nível do mar. Outros 75% receberam essas classificações no fator ligado à composição do fundo. As categorias podem se sobrepor e não devem ser somadas.
Segundo a Save The Waves Coalition, participante da pesquisa, mais de 190 especialistas locais contribuíram com as avaliações. O levantamento abrangeu 11 reservas em Portugal, Austrália, Peru, Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, El Salvador e Costa Rica.
Proteger construções pode alterar as ondas
A ameaça não vem apenas das mudanças climáticas. As respostas humanas à transformação do litoral também podem afetar os picos.
Muros de contenção, diques e outras estruturas podem limitar a movimentação natural de sedimentos e a adaptação das praias à subida do mar. Como as condições de surfe dependem desse ambiente, uma intervenção destinada a proteger construções pode modificar o funcionamento das ondas. Esse é um dos alertas destacados na reportagem do AS sobre o estudo.
Por isso, a pesquisa trata a gestão costeira como parte do problema e das possíveis soluções. Os autores recomendam incorporar a vulnerabilidade dos picos ao planejamento de adaptação, considerando as características de cada lugar.
O conhecimento local ajuda a identificar mudanças

Quem acompanha um pico ao longo dos anos observa como ele responde às marés, às tempestades e às alterações na praia. O SurfCAT organiza esse conhecimento em uma avaliação estruturada, permitindo comparar diferentes fatores de vulnerabilidade.
A Save The Waves ressalta que os efeitos não serão iguais em todos os locais. Características como o fundo marinho, a exposição às ondulações e a capacidade de adaptação da costa produzem perfis distintos. Portanto, preservar uma onda exige entender o sistema que a mantém funcionando.
O impacto também alcança a economia das praias
A importância desses ambientes ultrapassa a prática esportiva. Um levantamento anterior sobre Santa Cruz, na Califórnia, estimou em pelo menos US$ 194,7 milhões anuais o valor econômico associado ao surfe na região.
Desse total, aproximadamente US$ 44,5 milhões correspondiam a gastos de visitantes em viagens para surfar. O restante envolvia equipamentos e serviços ligados à atividade.
O mesmo relatório avaliou 31 picos e apontou que, sem medidas de adaptação, todos poderiam perder qualidade e horas de condições surfáveis diante da elevação do mar. Essas projeções são específicas de Santa Cruz e não representam automaticamente outros litorais.
Não existe uma solução única para todos os picos
O relatório de Santa Cruz identificou potencial em medidas que removam determinadas estruturas rígidas de proteção e utilizem abordagens baseadas na natureza. A aplicação depende, porém, das condições locais e das necessidades das comunidades.
A pesquisa internacional amplia esse debate: conservar uma praia envolve também os processos que formam suas ondas. Para os autores, avaliar outros picos e incluir os resultados no planejamento costeiro pode ajudar a antecipar perdas — tanto para o surfe quanto para as atividades e os vínculos que se desenvolveram ao seu redor.