Madri está a centenas de quilômetros do oceano, mas em breve poderá oferecer algo que normalmente exigiria uma viagem até a costa: surfar ondas artificiais. Um gigantesco complexo esportivo está sendo construído ao lado do estádio Metropolitano, combinando uma lagoa, tecnologia para criar diferentes tipos de ondas e uma área voltada ao lazer. Mas, antes mesmo de abrir, o projeto já enfrenta uma pergunta difícil: quanto custa, em recursos naturais e urbanísticos, criar uma praia onde não existe mar?
A lagoa que quer transformar Madri em destino de surfe
O projeto se chama Gemswell Surf Madri e faz parte do grande complexo conhecido como Ciudad del Deporte, desenvolvido nas proximidades do estádio Metropolitano, casa do Atlético de Madrid.
O elemento mais impressionante será uma lagoa artificial de aproximadamente 23 mil metros quadrados, apresentada pelos responsáveis como a maior estrutura desse tipo na Europa.
A tecnologia escolhida é da empresa espanhola Wavegarden, especializada em sistemas capazes de produzir ondas artificiais. A promessa é oferecer mais de 20 tipos diferentes de ondas, permitindo que praticantes com níveis distintos encontrem condições adequadas para treinar ou simplesmente experimentar o esporte.
A capacidade prevista chega a 120 surfistas simultaneamente.
Mas a proposta não termina na água. O complexo também deverá incluir uma escola de surfe, um skatepark de aproximadamente 700 metros quadrados e cerca de 3 mil metros quadrados destinados à gastronomia.
Os responsáveis pelo empreendimento afirmam ainda que serão utilizadas medidas para reduzir o impacto ambiental, incluindo painéis solares e sistemas de reaproveitamento de água da chuva.
O projeto também conta com uma dimensão financeira relevante. Cerca de 15,7 milhões de euros foram obtidos por meio de fundos europeus, dentro de uma operação que combina recursos privados e institucionais.
É justamente quando se olha para a quantidade de água necessária que a história fica mais controversa.
O tamanho da piscina esconde uma conta difícil
Uma lagoa aberta com 23 mil metros quadrados precisa ser constantemente abastecida e mantida. Em Madri, onde os períodos de calor podem ser intensos, a evaporação se tornou um dos principais pontos levantados pelos críticos.
A Plataforma Ecologista Madrileña calculou, utilizando dados de evaporação da AEMET, que a superfície poderia perder aproximadamente 32.200 metros cúbicos de água por ano apenas pela evaporação.
Para colocar o número em perspectiva, o volume estimado para preencher inicialmente a lagoa seria de cerca de 30 mil metros cúbicos. Ou seja, segundo essa estimativa, a perda anual por evaporação poderia superar o volume necessário para enchê-la uma vez.
Os grupos ambientalistas também consideram outras perdas, como limpeza, filtragem, purgas e respingos. Com esses fatores, estimam um consumo anual total entre 38 mil e 42 mil metros cúbicos.
É importante destacar que esses valores são estimativas apresentadas pelos grupos que criticam o projeto. Os responsáveis pelo complexo, por sua vez, defendem que a tecnologia utilizada foi projetada para reduzir o consumo de água e energia.
A discussão, portanto, não é simplesmente sobre construir uma piscina enorme. É sobre como manter uma área de água dessa dimensão funcionando continuamente em uma cidade que não possui acesso ao mar e enfrenta períodos de estresse hídrico.
E existe ainda outra questão que vai além do consumo de recursos.
A obra também está cercada por uma disputa urbanística
A lagoa faz parte de um projeto muito maior para transformar a região do Metropolitano em um polo esportivo, comercial e de entretenimento.
Mas o planejamento urbano da chamada Ciudad del Deporte entrou em conflito com decisões judiciais.
Em novembro de 2025, o Tribunal Superior de Justiça de Madri anulou o Plano Especial relacionado a parte do empreendimento. A decisão considerou que determinadas alterações deveriam ter sido realizadas por meio de uma modificação do Plano Geral e acompanhadas de uma avaliação ambiental estratégica.
Isso não significou automaticamente a interrupção das obras.
A Prefeitura de Madri anunciou recurso ao Tribunal Supremo e sustentou que a decisão não impedia a continuidade de determinados procedimentos e licenças enquanto o processo judicial prosseguisse.
Assim, a futura lagoa avançou em meio a duas discussões diferentes, mas conectadas: a legalidade urbanística do desenvolvimento e o impacto ambiental de sua operação.
Para os responsáveis, o empreendimento pode transformar Madri em um novo destino esportivo e turístico, oferecendo uma experiência de surfe sem necessidade de viajar até a costa.
Para seus críticos, porém, a imagem é muito mais controversa: uma gigantesca superfície artificial de água sendo construída em uma cidade continental, justamente quando o uso desse recurso é cada vez mais discutido.
A praia sem mar ainda precisa provar que funciona
A ideia é, sem dúvida, curiosa. Em vez de viajar para Portugal, França ou Espanha em busca de ondas, surfistas poderão, em teoria, encontrar diferentes condições dentro de uma lagoa artificial no coração de Madri.
O projeto também mostra como a tecnologia está alterando a própria geografia do lazer. Atividades que dependiam de condições naturais específicas podem ser recriadas artificialmente em locais onde elas nunca existiram.
Mas o sucesso de Gemswell Surf Madrid não será medido apenas pela qualidade das ondas.
Será necessário saber quanta água realmente consumirá, como seus sistemas de reaproveitamento funcionarão na prática e qual será o impacto ambiental de uma estrutura dessa dimensão. Também será preciso acompanhar o desfecho das disputas urbanísticas que cercam a área.
A resposta para a pergunta do título é, portanto, bastante literal: Madri terá uma espécie de praia sem mar graças a uma enorme lagoa artificial equipada com tecnologia capaz de fabricar ondas.
O verdadeiro debate começa depois: descobrir se é possível reproduzir a experiência do litoral sem importar também alguns dos problemas ambientais e urbanos que vêm junto com ela.