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Regras mais rígidas para visto reduzem viagens aos EUA e acendem alerta econômico

A promessa do “sonho americano” está ficando cada vez mais cara — e mais distante. As recentes medidas do governo Donald Trump para dificultar a obtenção do visto americano já causam impacto direto no turismo e na economia dos Estados Unidos. E, segundo especialistas, o efeito pode ser ainda mais profundo do que parece.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Veja como as novas regras mudam o jogo

Em agosto, Trump anunciou a possibilidade de tornar o visto mais difícil — e até revisar vistos já concedidos. Em setembro, o estudo da Tourism Economics mostrou o primeiro efeito concreto: queda prevista de 8,2% nas chegadas internacionais até o fim do ano.

Esse recuo ameaça tanto a economia quanto a imagem internacional dos EUA, já fragilizada pelos sucessivos tarifaços contra produtos de diversos países.

Para 2025, o Serviço de Cidadania e Imigração (USCIS) prepara um novo teste de civismo, exigido para naturalização. A avaliação inclui perguntas sobre história e governo dos EUA. Mas o ponto mais sensível está em outro trecho: todos os portadores de visto — estudantes, turistas e trabalhadores — poderão ter seus documentos revisados, dentro ou fora do território americano.

Além disso, o USCIS vai reavaliar fatores subjetivos, como “bom caráter moral” e “contribuição positiva” do estrangeiro à sociedade americana.

Deportações, insegurança e o impacto sobre brasileiros

O endurecimento migratório já mostra números contundentes.

Desde o início das medidas de Trump, 2.268 brasileiros foram deportados até 1º de outubro. As operações envolveram 24 voos de repatriação.

Cerca de 1,9 milhão de brasileiros vivem hoje nos EUA, legalmente ou não

Para Leonardo Paz Neves, cientista político da FGV, a revisão de vistos pode afastar turistas e travar fluxos essenciais. Os EUA são um dos destinos mais visitados do planeta — tanto para viagens de lazer quanto para negócios, estudos e eventos profissionais. Menos entrada de estrangeiros significa menos dinheiro circulando em hotéis, restaurantes, transporte e comércio.

E o impacto vai além. Profissionais altamente qualificados que sonham com o Vale do Silício também encontram obstáculos. O exemplo mais gritante é o salto no custo do visto H1B, usado por especialistas em tecnologia: de US$ 8 mil para US$ 100 mil — cerca de R$ 550 mil.

Um valor proibitivo, que empurra talentos para Europa, Canadá e Austrália.

Paz Neves alerta ainda que até quem já tem green card pode ser afetado. Pessoas que vivem há uma década nos EUA podem, de repente, enfrentar exigências que as forcem a deixar o país. Para famílias com filhos na escola, emprego estável e vida estruturada, isso significa um impacto profundo.

O tabuleiro político global: cuidado para não tensionar

Rudá Ricci, outro especialista ouvido, destaca que a política migratória é parte de uma estratégia mais ampla: proteger o mercado interno e reforçar a segurança nacional. Ele avalia que o Brasil deve evitar atritos com Washington neste momento, já que tarifas sobre exportações brasileiras — especialmente café — estão em negociação.

Ou seja: bater de frente agora pode fechar portas em outras discussões mais urgentes.

Entenda por que os efeitos econômicos podem ser ainda maiores

O economista Davi Lelis explica que, embora o governo Trump defenda que a redução de imigrantes diminuiria gastos públicos, essa visão ignora um ponto básico: imigrantes movimentam a economia.

Eles estudam, trabalham, alugam imóveis, usam serviços, abrem empresas e consomem.

Basta lembrar que boa parte do avanço tecnológico dos EUA veio justamente de estrangeiros: Google, Tesla, Nvidia, Intel, Moderna — todas têm imigrantes entre seus fundadores ou pesquisadores-chave.

Segundo Lelis, ao impor critérios subjetivos e barreiras financeiras pesadas, os EUA corroem uma de suas maiores vantagens históricas: atrair talentos globais. Isso afeta inovação, pesquisa, competitividade e crescimento de longo prazo.

O impacto pode chegar também ao bolso dos americanos. Com menos trabalhadores entrando no país, a oferta de mão de obra diminui, a produção fica mais cara e os preços podem subir. O alerta de Lelis é explícito: a medida pode criar pressão inflacionária e atrapalhar a queda dos juros conduzida pelo Federal Reserve.

Turistas gastam — e muito. E a conta está ficando negativa

O escritor e economista Masimo Della Justina lembra que um brasileiro gastando férias nos EUA deixa, em média, US$ 250 por dia só com hospedagem, alimentação e transporte — sem contar compras, passeios e ingressos.

Se o país dificulta a entrada desse turista, perde receita direta em:

  • Hotelaria
  • Restaurantes
  • Comércio
  • Locadoras
  • Apps de transporte
  • Turismos e serviços locais

E esse efeito é imediato.

A conclusão de Della Justina é clara: “Um país construído por imigrantes não pode demonstrar aversão a estrangeiros, muito menos a visitantes temporários”.

O que está em jogo daqui para frente

As novas restrições de visto mostram que os EUA vivem uma mudança profunda em sua política migratória — uma mudança que mira segurança e proteção, mas que pode custar caro ao turismo, à inovação e à economia americana.

Resta saber se esse caminho vai fortalecer o país ou afastar talentos, turistas e parceiros comerciais. Nos próximos meses, veremos se a busca por controle vai superar o impacto econômico — ou se os números crescentes de queda no turismo obrigarão Washington a repensar sua estratégia.

[Fonte: Correio Braziliense]

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