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Tecnologia

Revolução invisível: como a inteligência artificial está redefinindo o risco e a confiança no setor de seguros

Em um mundo onde deepfakes, fraudes digitais e desinformação minam a credibilidade, o verdadeiro desafio das seguradoras vai além de indenizar perdas: é restaurar a confiança — um ativo cada vez mais raro e valioso.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, a indústria de seguros se baseou em certezas mensuráveis: calcular probabilidades, avaliar danos e compensar prejuízos. Mas na era da desinformação e da manipulação digital, o risco mudou de forma — tornou-se líquido, imprevisível e interconectado. Hoje, o papel das seguradoras não é apenas cobrir perdas, mas proteger a verdade em um mundo que duvida de tudo.

O risco líquido e o fim da previsibilidade

A consultoria Celent chama essa nova realidade de “risco líquido” — um conceito que descreve um cenário em que ameaças fluem entre setores, fronteiras e contextos, exigindo decisões rápidas, modulares e baseadas em dados em tempo real.

“Os riscos atuais são fluidos e, muitas vezes, autoinduzidos”, explica Juan Mazzini, CEO da Celent. “Isso obriga as seguradoras a abandonarem a dependência exclusiva de dados históricos e a adotarem modelos de análise dinâmicos.”

O relatório Navegando o risco líquido: repensando os seguros para um mundo disruptivo detalha essa transição, destacando que o futuro das companhias de seguro dependerá da capacidade de ler sinais em tempo real — climáticos, digitais ou geopolíticos — para antecipar crises antes que elas explodam.

A confiança como novo capital

A credibilidade, que sempre foi o alicerce do setor, tornou-se o seu maior desafio. “Em um contexto de desinformação, garantir a verdade é um desafio que já não podemos enfrentar com métodos tradicionais”, afirma Iván Ballón, gerente de desenvolvimento da Friss para a América Latina.

O avanço dos deepfakes, das identidades sintéticas e da manipulação de dados fragilizou o vínculo entre fatos e realidade. “Já não se trata apenas de perguntar ‘o que cobrir?’, mas ‘o que é verdadeiro?’”, reforça Mazzini.

Para Nicolás Kuzminski, Chief Data Officer da Klimber, esse é um momento decisivo para redefinir o valor do seguro na era digital: “Precisamos reconstruir a confiança com base na validação de fatos e na transparência com o cliente.”

IA: da reação à antecipação

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© Pexels

Tradicionalmente reativas, as seguradoras estão migrando para modelos proativos e adaptativos, com a inteligência artificial no centro da transformação.

Segundo a Celent, a IA permite precisão, velocidade e personalização, demonstrando ao cliente que a seguradora não protege apenas seu patrimônio, mas também sua segurança informacional.

Essa virada já aparece em produtos inovadores, como ciberseguros que incluem recuperação de dados, suporte jurídico e gestão de crises reputacionais, e em processos internos que usam “subscrição líquida” — sistemas que incorporam dados em tempo real para decisões mais ágeis e precisas.

A batalha contra o falso e o fraudulento

O fraude digital tornou-se um dos principais riscos do setor. Reclamações baseadas em fotos retocadas, notas fiscais falsas e até vídeos manipulados fazem parte do novo cenário de ameaça.

Para enfrentá-lo, surgem soluções como o Friss Media Check, ferramenta que combina inteligência artificial e forense digital para verificar, em segundos, a autenticidade de imagens e documentos. O sistema analisa metadados, detecta deepfakes e identifica uso indevido de imagens de banco de dados, integrando-se aos fluxos normais de gestão de sinistros.

Outras empresas investem em sistemas avançados de verificação de identidade, com análise criptográfica de vídeos, voz e assinaturas digitais. “A boa tecnologia existe para neutralizar a má tecnologia”, observa Ballón. “É preciso automatizar a verificação sem eliminar o olhar humano do processo.”

Do pagador ao guardião da verdade

Na Klimber, agentes de IA estão sendo desenvolvidos para verificar automaticamente informações e acelerar o processamento de sinistros, reforçando a confiabilidade de cada etapa. “O foco agora é oferecer experiências consistentes e transparentes durante todo o ciclo de serviço”, diz Kuzminski.

Essa evolução marca uma mudança profunda no papel das seguradoras: de meros pagadores de sinistros para garantes de confiança em um ecossistema digital cada vez mais volátil.

A chamada era da verdade líquida exige que a tecnologia e a ética caminhem juntas. O futuro dos seguros será definido não apenas por quem calcula melhor o risco — mas por quem for capaz de restaurar a certeza em um mundo onde a dúvida virou regra.

 

[ Fonte: La Nación ]

 

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