Poucos alimentos conseguem reunir história, cultura e ciência em uma única garrafa. O azeite de oliva extravirgem é um desses casos raros. Presente na alimentação humana há milhares de anos, ele foi fundamental para o desenvolvimento das civilizações mediterrâneas e permanece como um dos pilares das dietas consideradas mais saudáveis do planeta. Para o antropólogo e escritor espanhol Emilio Lara, o produto ocupa um lugar especial na história da humanidade — e talvez também na busca pela longevidade.
O “ouro verde” que moldou civilizações
O azeite de oliva é frequentemente chamado de ouro verde, uma referência tanto ao seu valor econômico quanto à sua importância cultural.
Segundo Emilio Lara, doutor em Antropologia e autor do livro Un mar de oro verde, o produto desempenhou um papel semelhante ao que o petróleo exerce atualmente. Durante séculos, movimentou rotas comerciais, influenciou disputas territoriais e ajudou a sustentar economias inteiras ao redor do Mediterrâneo.
Civilizações como gregos, fenícios e romanos transformaram o azeite em um elemento essencial da vida cotidiana. Ele era utilizado na alimentação, na iluminação, em práticas religiosas, na higiene pessoal e até em tratamentos medicinais.
Para Lara, sua relevância histórica é tão grande que o azeite pode ser considerado um dos recursos estratégicos mais importantes da Antiguidade.
Por que o azeite é associado à longevidade

Ao analisar sua trajetória histórica e seus efeitos sobre a saúde humana, Lara chegou a uma conclusão provocativa: o azeite de oliva extravirgem seria “o mais próximo que existe na natureza de uma fonte da eterna juventude”.
Embora a frase tenha um tom simbólico, ela encontra respaldo em diversas pesquisas científicas.
O azeite extravirgem é rico em polifenóis, compostos antioxidantes que ajudam a combater o estresse oxidativo, processo associado ao envelhecimento celular e ao desenvolvimento de diversas doenças crônicas.
Além disso, contém gorduras monoinsaturadas consideradas benéficas para o organismo, especialmente para a saúde cardiovascular.
Benefícios que vão além do coração
Durante décadas, os estudos sobre o azeite concentraram-se principalmente em seus efeitos sobre o sistema cardiovascular. Hoje, as pesquisas avançam em várias outras direções.
Evidências científicas sugerem que o consumo regular de azeite extravirgem ajuda a reduzir os níveis de colesterol LDL, conhecido popularmente como colesterol “ruim”, ao mesmo tempo em que contribui para a manutenção do HDL, o colesterol “bom”.
Os polifenóis presentes no produto também estão associados à redução da pressão arterial e à proteção das artérias contra processos inflamatórios que favorecem a aterosclerose.
Outro campo promissor envolve a relação entre o azeite e a microbiota intestinal. Estudos indicam que seus componentes podem favorecer o equilíbrio das bactérias benéficas do intestino, influenciando não apenas a digestão, mas também funções metabólicas e cognitivas.
O papel na proteção do cérebro
Pesquisadores também investigam o potencial do azeite na prevenção de doenças neurodegenerativas.
Os compostos antioxidantes e anti-inflamatórios presentes no alimento parecem contribuir para a proteção das células nervosas, reduzindo processos associados ao envelhecimento cerebral.
Embora os estudos ainda estejam em andamento, especialistas consideram que o azeite pode desempenhar um papel relevante na manutenção da saúde cognitiva ao longo da vida.
Há ainda pesquisas explorando possíveis relações entre seu consumo e a redução de sintomas ligados ao estresse, à ansiedade e à depressão.
Como escolher um azeite realmente extravirgem
Nem todo azeite disponível no mercado oferece as mesmas características.
Especialistas recomendam verificar se o produto é classificado como extravirgem, categoria obtida a partir da primeira extração das azeitonas e sem processos de refino químico.
Também é importante observar a procedência, a data de produção e as condições de armazenamento, já que luz, calor e oxigênio podem comprometer a qualidade do produto.
Assim como ocorre com o vinho, diferentes variedades de azeitonas produzem azeites com sabores distintos. Alguns apresentam notas mais suaves e frutadas, enquanto outros possuem características mais intensas, amargas ou picantes.
Um investimento em saúde
O aumento do preço do azeite nos últimos anos gerou debates em diversos países produtores e consumidores.
Para Emilio Lara, porém, o produto deve ser encarado não apenas como um item gastronômico, mas como um investimento em saúde.
A ciência ainda está longe de descobrir uma verdadeira fonte da juventude. Mas, entre os alimentos estudados até hoje, poucos acumulam tantas evidências positivas quanto o azeite de oliva extravirgem. Talvez seja justamente por isso que ele tenha atravessado milênios sem perder seu prestígio — e continue ocupando um lugar de destaque tanto nas cozinhas quanto nos laboratórios.
[ Fonte: La Nación ]